Peco-vos que me digais

A uma Senhora rezando
MOTE
Peco-vos que me digais
Se as orações que rezastes,
Se foram por quem matastes,
Se por vós, que assim matais.

GLOSA
Co'spírito puro e vivo,
A vista toda turbada,
Nos Céus vos vi enlevada
Com gesto contemplativo
No amor divino inflamada.
E por quanto, extremos tais,
Me causarão grande espanto,
Seria ora com zelo santo,
Peco-vos que me digais?

Porque pondo-me a notar
Os efeitos da visão,
Medindo-os com a rezão,
Hei vindo, enfim, a assentar
Que estáveis em oração
Mas como de tantas vidas,
E corações que roubastes,
Vossas mãos são compreendidas,
Mal podem ser recebidas
As orações que rezastas.

Que posto que Deus aceita
Um coração humilhado,
A contrição do pecado
Há-de ser dor tão perfeita,
Que lhe pese do passado;
Porém se no que mostrastes,
De tanto mal vos doestes,
Pode ser que empregastes
Bem as preces que dissestes,
Se foram por quem matastes.

E pera ser mais aceito
O preço da salvação,
É de divino direito
Que façais satisfação
Dos danos que tendes feito.
Por tanto restituí
A vida que me tirais,
E então não duvideis mais,
Se rezastes só por mi,
Se por vós que assim matais.