Pastora da serra

CANTIGA ALHEIA
Pastora da serra,
Da Serra da Estrela,
Perco-me por ela.

VOLTAS
Nos seus olhos belos
Tanto Amor se atreve,
Que abrasa antre a neve
Quantos ousam vê-los.
Não solta os cabelos
Aurora mais bela:
Perco-me por ela.

Não teve esta serra
No meio d'altura
Mais que a fermosura
Que nela se encerra.
Bem céu fica a terra
Que tem tal estrela:
Perco-me por ela.

Sendo antre pastores
Causa de mil males
Não se ouvem nos vales
Senão seus louvores.
Eu só por amores
Não sei falar nela:
Sei morrer por ela.

Dalguns que, sentindo
Seu mal vão mostrando,
Se ri, não cuidando
Que inda paga, rindo.
Eu, triste, encobrindo
Só meus males dela,
Perco-me por ela.

Se flores deseja,
Porventura, belas,
Das que colhe, delas
Mil morrem de enveja.
Não há quem não veja
Todo o milhor nela:
Perco-me por ela.

Se n'água corrente
Seus olhos inclina,
Faz a luz divina
Parar a corrente.
Tal se vê, que sente
Por ver-se [a] água nela
Perco-me por ela.