Os olhos onde o casto Amor ardia

Os olhos onde o casto Amor ardia,
Ledo de se ver neles abrasado;
O rosto onde com lustre desusado
Purpúrea rosa sobre neve ardia;

O cabelo, que inveja ao Sol fazia,
Porque fazia o seu menos dourado;
A branca mão, o corpo bem talhado,
Tudo aqui se reduz a terra fria.

Perfeita fermosura em tenra idade,
Qual flor, que antecipada foi colhida,
Murchada está da mão da morte dura.

Como não morre Amor de piadade?
Não dela, que se foi à clara vida;
Mas de si, que ficou em noite escura.