Ora cuidar me assegura
MOTE
Ora cuidar me assegura,
Ora me matam cuidados.
GLOSA
Foi ser a vontade minha
De todos tão desviada,
Que me não afirmo em nada,
Pois tenho o mal que tinha,
O bem que tinha me enfada.
Isto é força da ventura,
Se não me engana o que cuido,
Que tais extremos mestura,
Que ora o meu próprio descuido.
Ora cuidar me assegura.
Diversas cousas me pede
O meu desejo inquieto,
Ũas nego, outras prometo;
Mas contudo me sucede
Perder-me no que cometo.
Como será dos meus fados
A tenção favorecida,
Se pera males dobrados
Dão-me ora cuidados da vida,
Ora me matam cuidados.
