Onde mereci eu tal pensamento

Onde mereci eu tal pensamento,
Nunca de ser humano merecido?
Onde mereci eu ficar vencido
De quem tanto me honrou co vencimento?

Em glória se converte o meu tormento,
Quando, vendo-me, estou tão bem perdido,
Pois não foi tanto mal ser atrevido,
Como foi glória o mesmo atrevimento.

Vivo, Senhora, só de contemplar-vos;
E, pois esta alma tenho tão rendida,
Em lágrimas desfeito acabarei.

Porque não me farão deixar de amar-vos
Receios de perder por vós a vida,
Que por vós vezes mil a perderei.