O dia em que nasci moura e pereça
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o Mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!
Este poema tem suscitado inúmeras interpretações e ampla discussão entre académicos, dando origem a algumas teses sobre a data de nascimento do poeta. Inicialmente, 23 de janeiro de 1524, um ano antes de um eclipse solar parcial ocorrido a 23 de janeiro de 1525, data defendida por Mário Sá, (1938-1941) e posteriormente por Carlota Simões (2018). Mais recentemente, Felipe de Saavedra refutou estas teses, defendendo a data de 25 de fevereiro de 1525, com base num eclipse solar, observável como total em Lisboa no dia 25 de fevereiro de 1579, e nos documentos de embarque do poeta para a Índia. Cf.: https://irp.cdn-website.com/90c88ca3/files/uploaded/ATAS+MACAU+Felipe+de+Saavedra+31+-+56-2c6be9cb.pdf
