Nunca um apetite mostra o dano
Nunca um apetite mostra o dano
Antes de ser de todo efetuado,
Mas no fim vem mostrar o desengano.
Dureza a causa, e eu desesperado,
Pelo que imaginou o pensamento,
Ando por esta serra desterrado.
Espalhando a voz ao leve vento,
Dele só consolado, dele ouvido,
O faço sabedor de meu tormento.
Que monte há, que não tenha já movido,
Que áspera montanha, ou roca dura,
A força de meu mal não merecido.
Nas duras pedras acha-se brandura,
Falta nesse cruel humano peito,
Quem viu nunca maior desaventura!
Pouco pôde em ti amor perfeito,
Quando de um movimento vive indino,
Que jamais se negou a um sujeito.
Da ventura, de vós, de meu destino,
Pois todos contra mim são conjurados,
Este vale farei de meu mal dino.
Com ele a noute, e o dia meus cuidados
Passarei em acerba e longa vida
Em queixas, e em suspiros desusados.
Porque sei que serás disso servida,
Não deixarei dos montes a dureza,
Até tua vontade ser movida.
Aqui me subirei na mor alteza
Da serra, onde logo contemplada
Será tua perfeição, tua crueza.
A alma em ti só pronta e ocupada
Estando de tormento esquivo e duro,
Oprimida será de ti levada.
Discorrendo um passo, e outro escuro,
De mal em mal, de um em outro dano,
A paga tal verá de um amor puro.
E vendo aqui tão claro o desengano,
Cos olhos feitos fontes mudará
Lugar tão infelice, e desumano.
E o que mor tormento lhe dará
A lembrança de algum contentamento,
Que inda que pequeno, magoará.
Fará por divertir o pensamento
Desta parte tristíssima mudando
Ũa lembrança cheia de tormento.
Ali algum espaço porfiando,
Tendo por impossível esquecer-te,
Ficará ao vento vozes dando.
Ali se queixará de conhecer-te,
Ali dura, cruel, despiedosa
Dirá: — Dize, que podes já mover-te.
Mais que Vénus (dirá) dize, fermosa,
Quando nessa beleza pura e rara
Se verá ũa hora piadosa.
Ali dirá, cruel, e quem cuidara
De um espírito tão resplandecente
Tão fera condição, e tão avara.
Ali viverá triste, ali ausente,
O costumado mal por si sofrendo,
De o quereres tu tanto contente,
Como o mundo está já conhecendo.
