Nem roxa flor de Abril
XI
Nem roxa flor de Abril,
Pintor do campo ameno e da verdura,
Colhida entre outras mil,
Foi nunca assi agradável à donzela
Cortês, alegre e bela,
De sua mãe cuidado e glória pura,
Como a mim foi a inculta fermosura
Natural, que pudera
A Saturno render na sua Esfera.
Natural fonte agreste,
Não lavrada de artífice excelente,
Mas por arte celeste,
Derivada de rústico penedo,
Não fez já mais ledo
Cansado caçador por sesta ardente,
Quanto o cuidado a mim me fez contente
Do ver tão descuidado
Que faz sereno a Júpiter irado.
Fruita, que sem concerto
Naturalmente em ramos se pendura,
Achada por acerto;
A quem pintada a vê de sangue e leite,
Não lhe dará o deleite,
Que essa graça me dá sem compostura,
Ornamento da mesma fermosura,
E o toucado sem arte,
Que tornara pastor ao bravo Marte.
A manhã graciosa,
Que derramando sai dantre os cabelos
A flor, o lírio, a rosa,
Sem ajuda de ornato, ou de artifício,
Não faz o benefício,
Que faz a luz dos vossos olhos belos
A quem os vê tão puros e singelos;
E esse inocente riso,
Por quem Apolo o Tejo torna Anfriso.
Outeiros coroados
Das árvores que fazem a espessura
Com os ramos capados
Alegre, que mão destra os não cultiva,
Graça tão excessiva
Não tem na sua natural verdura,
Quanta na desses olhos, clara e pura,
Deposita a esperança,
Com que Amor gosto, a mãe tormento alcança.
Dos simples passarinhos
A música sem arte concertada,
Dentre os verdes raminhos,
Tão suave não é, tão deleitosa
A quem na selva umbrosa
Com mente ouvindo-a está toda enlevada,
Quanto a mim essa fala doce agrada,
E o natural aviso,
Que roubam a Mercúrio ceptro e siso.
De frescos rios água,
Que clara antre arvoredos se deriva,
Caindo de alta frágua,
Esmaltando de pérolas no prado
O verde delicado,
Com brando som aos olhos fugitiva,
Não nos alegra quanto a graça esquiva
Dessa luz soberana,
Que faz cortês a rústica Diana.
A tal luz (ó Canção, que ousaste vê-la!)
Vendo estás já prostrado
Saturno triste, Júpiter irado,
Bravo Marte, áureo Apolo, Vénus bela,
E Mercúrio, e Diana, e toda estrela.
