Mas porém a que cuidados?
A D. Francisca de Aragão, mandando-lhe esta regra, que lhe glosasse
MOTE: Mas porém a que cuidados?
Tanto maiores tormentos
Foram sempre os que sofri,
Daquilo que cabe em mi,
Que não sei que pensamentos
São os pera que nasci.
Quando vejo este meu peito
A perigos arriscados
Inclinado, bem suspeito
Que a cuidados sou sujeito.
Mas porém a que cuidados?
Ao mesmo mote:
Que vindes em mim buscar,
Cuidados, que sou cativo?
Eu não tenho que vos dar.
Se vindes a me matar,
Já há muito que não vivo.
Se vindes, porque me dais
Tormentos desesperados,
Eu, que sempre sofri mais,
Não digo que não venhais.
Mas porém a que cuidados?
Ao mesmo mote:
Se as penas que Amor me deu
Vêm por tão suaves meios,
Não há que temer receios,
Que val' um cuidado meu
Por mil descansos alheios.
Ter nuns olhos tão fermosos
Os sentidos enlevados,
Bem sei que em baixos estados
São cuidados perigosos.
Mas porém, ah! que cuidados!
