Junto de um seco, duro, estéril monte

IX

Junto de um seco, duro, estéril monte,
Inútil e despido, calvo e informe,
Da Natureza em tudo aborrecido;
Onde nem ave voa, ou fera dorme,
Nem corre claro rio, ou ferve fonte,
Nem verde ramo faz doce ruído;
Cujo nome, do vulgo introduzido,
É Felix, por antífrase infelice;
O qual a Natureza
Situou junto à parte,
Aonde um braço d'alto mar reparte
A Abassia da arábica aspereza,
Em que fundada já foi Berenice,
Ficando à parte donde
O Sol, que nela ferve, se lhe esconde;

O cabo se descobre, com que a costa
Africana, que do Austro vem correndo,
Limite faz, Arómata chamado;
Arómata, outro tempo, que, volvendo
A roda, a rude língua mal composta
Dos próprios outro nome lhe tem dado.
Aqui, no mar, que quer apressurado
Entrar por a garganta deste braço,
Me trouxe um tempo e teve
Minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
Parte do Mundo, quis que a vida breve
Também de si deixasse um breve espaço,
Porque ficasse a vida
Por o Mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
Tristes, forçados, maus e solitários,
De trabalho, de dor e de ira cheios;
Não tendo tão-somente por contrários
A vida, o sol ardente, as águas frias,
Os ares grossos, férvidos e feios,
Mas os meus pensamentos, que são meios
Pera enganar a própria Natureza,
Também vi contra mim,
Trazendo-me à memória
Algũa já passada e breve glória
Qu'eu já no Mundo vi, quando vivi,
Por me dobrar dos males a aspereza,
Por mostrar-me que havia
No Mundo muitas horas de alegria.

Aqui 'stive eu com estes pensamentos
Gastando tempo e vida; os quais tão alto
Me subiam nas asas, que caía
(Oh! vede se seria leve o salto!)
De sonhados e vãos contentamentos,
Em desesperação de ver um dia.
O imaginar aqui se convertia
Em improvisos choros e em suspiros,
Que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
Chagada toda, estava em carne viva,
De dores rodeada e de pesares,
Desamparada e descoberta aos tiros
Da soberba Fortuna;
Soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
Nem esperança algũa onde a cabeça
Um pouco reclinasse, por descanso.
Tudo dor lhe era e causa que padeça,
Mas que pereça não, porque passasse
O que quis o Destino nunca manso.
Oh! que este irado mar, gemendo, amanso!
Estes ventos, da voz importunados,
Parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
As Estrelas e o Fado sempre fero,
Com meu perpétuo dano se recreiam,
Mostrando-se potentes e indinados
Contra um corpo terreno,
Bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
Saber inda por certo que algũa hora
Lembrava a uns claros olhos que já vi;
E se esta triste voz, rompendo fora,
As orelhas angélicas tocasse
Daquela em cuja vista já vivi;
A qual, tornando um pouco sobre si,
Revolvendo na mente pressurosa
Os tempos já passados
De meus doces errores,
De meus suaves males e furores,
Por ela padecidos e buscados,
E (posto que já tarde) piadosa,
Um pouco lhe pesasse,
E lá antre si por dura se julgasse!

Isto só que soubesse, me seria
Descanso pera a vida que me fica;
Com isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora! Ah! Senhora! E que tão rica
Estais, que, cá tão longe, de alegria
Me sustentais com doce fingimento!
Logo que vos figura o pensamento,
Foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças,
Me acho seguro e forte
Contra o rostro feroz da fera Morte;
E logo se me juntam esperanças
Com que a fronte, tornada mais serena,
Torna os tormentos graves
Em saudades brandas e suaves.

Aqui com elas fico perguntando
Aos ventos amorosos, que respiram
Da parte donde estais, por vós, Senhora;
Às aves que ali voam, se vos viram,
Que fazíeis, que estáveis praticando,
Onde, como? com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada se melhora,
Toma espritos novos, com que vença
A Fortuna e Trabalho,
Só por tornar a ver-vos,
Só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo que a tudo dará talho;
Mas o Desejo ardente, que detença
Nunca sofreu, sem tento
Me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Aqui vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, porque não mouro,
Podes-lhe responder que porque mouro.