Foi-se gastando a esperança
MOTE
Foi-se gastando a esperança,
Fui entendendo os enganos;
Do mal ficaram meus danos
E do bem só a lembrança.
GLOSA
Nunca em prazeres passados
Tive firmeza segura,
Antes tão arrebatados,
Que inda não eram chegados
Quando mos levou ventura.
E como quem desconfia
Ter em tal sorte mudança,
No meio desta porfia,
De quanto bem pretendia
Foi-se gastando a esperança.
Não tive por desatino
A ocasião de perdê-la;
Mas foi culpa do destino,
Que a ninguém, como mais dino,
Amor, pudera sustê-la.
Dei-lhe tudo o que era seu,
Não receando tais danos
Deste, a quem alma lhe deu;
Quando já não era meu,
Fui entendendo os enganos.
Fiquei, deste mal sobejo
A quem a causa compete,
Dezer-lhe tudo o que vejo,
Que Amor aceita o desejo.
Mas mente no que promete.
Que se a mim se me obrigou
A dar-me bens soberanos,
Foi engano que ordenou,
Que do bem tudo levou,
Do mal ficaram meus danos.
E se dor tão desigual
Sofro em mim com padecê-los,
Quero de novo sofrê-los;
Que, por a causa ser tal,
Não determino ofendê-los.
Dobre-se o mal, falte a vida,
Cresça a fé, falte a esperança,
Pois foi mal agradecida;
Fique a dor n'alma imprimida,
E do bem só a lembrança.
