De quanto alento e gosto me causava

À morte de D. Catarina de Ataíde, Dama da
Rainha
Interlocutores: SOLISO e SILVANO

SOLISO
De quanto alento e gosto me causava
A vista da manhã resplandecente,
Com que toda a tristeza se alegrava;

Que quando vinha o Sol claro e luzente,
Bem claro então em mi se conhecia
Ũa nova alegria diferente;

Tanto agora me ofende o novo dia,
Vendo que me não mostra a fermosura,
De que só me mantinha e só vivia.

E não me quis deixar triste ventura
Esperanças de mais tornar a vê-la!
Oh! destino cruel! oh! sorte dura!

Oh! querida Natércia! oh! Ninfa bela,
Em quem enfim, mostrou a Natureza
O mais que se podia esperar dela!

Se lá no assento da maior alteza
Te lembras de quem viste cá na terra,
Pera te magoar sua tristeza;

Lembre-te de contino a cruel guerra,
Que contínua me faz tua lembrança,
Esquecido do gado, vale e serra.

Lembre-te que perdi a confiança
De ver os olhos teus, e juntamente
De todo o bem de Amor toda a esperança.

Lembre-te que por ti de mi ausente
A cristalina fonte me é nojosa,
Com que já noutro tempo fui contente.

Que por ti a manhã clara e fermosa
Males cada momento me acrescenta;
Sendo-me em outros dias deleitosa.

Por ti o puro Sol me descontenta;
Com seu canto me ofende a Filomela;
Mas, porque nele chora, me contenta.

Por ti, Natércia pura, Ninfa bela,
Na verdura suave deste prado
Os males multiplico só com vê-la.

Por ti, não curo já do manso gado,
Com o mesmo que então meu bem crescia,
Agora vai crescendo o meu cuidado.

Não sou já, já não sou quem ser soía;
Mudou-se-me a vontade coa ventura;
Mudou-se cos tormentos a alegria;

Tornou-se o claro dia em noute escura;
Ne é muito que tudo se mudasse,
Pois se mudou a tua fermosura.

Não via outro reparo, que cuidasse
Poder aproveitar ao meu tormento,
Nem outra glória algũa em que esperasse,

Senão enquanto o triste pensamento
Se punha a contemplar tua beldade,
Sem lhe lembrar tão longo apartamento.

Agora que me falta a claridade,
Que de ver-te a minha alma recebia,
Ficando-me só dela a saudade;

Qual ficará ũa alma, que sabia
Somente desta glória contentar-se?
Glória de que gozar não merecia!

Qual poderá ficar quem com lembrar-se
Mortalmente do bem que é já passado,
Só tem por milhor vida à morte dar-se?

E qual se pode ver quem um cuidado
Sustém, que é só da dor certa morada,
E nele vive só desesperado?

Qual há-de ver-se, ó Ninfa delicada,
Ũa alma que te via; e em te vendo
O fio lhe cortou a Parca irada?

A causa deste mal eu não a entendo;
Só entendo que, perdida essa luz pura,
Por perdida a não ver, vivo morrendo.

Vejo que me roubou fortuna escura
Um bem por quem meu mal me contentava;
Lembra-te tu de tanta desventura.

Lembra-te tu, que só de ti esperava
Remédio aos males meus; e então verás
Qual ficou quem em ti só confiava.

Lembre-te adonde estou, adonde estás,
E que tudo sem ti cá me avorrece;
Destarte o estado meu entenderás.

SILVANO
Não sei por que rezão nos amanhece
Este dia dos outros diferente,
Com que toda a alegria se entristece,

O manso gado vejo, que contente
Buscando ia nos campos a verdura,
E dos rios a límpida corrente;

Agora triste errar pela espessura,
Alheio de erva verde e de água fria;
Sinal dalguma grande desventura.

Suspensa está das aves a harmonia
E em certo modo mostra que lá chora
A mesma sequidão da penedia.

A cândida, rosada, bela Aurora,
Que sempre os altos montes vem dourando,
Com um palor mortal se mostra agora.

Está-se nestas ervas enxergando
Tão triste cor, que dela se conhece
Que algum mal se nos vai aparelhando.

Enfim, vejo que tudo se entristece;
A causa ignoro. O céu piadoso queira
Que menos seja o mal, do que parece.

Porque, desde que habito esta ribeira,
Não me acordo de a ver tão carregada,
Nem de a ouvir murmurar desta maneira.

Não me acordo que visse outra alvorada
Tão confusa sair, como esta vejo,
De profunda tristeza acompanhada.

Agora aqui tomara quem sem pejo
A causa, se a soubesse, me ensinasse,
Pera satisfazer a meu desejo.

Porque não posso eu crer que resultasse
De algũa baixa causa um tal efeito,
Que até nos duros montes se enxergasse.

O coração cá dentro no meu peito
Me assegura, que tanta novidade
Não traz a origem de comum respeito.

Mas, por antre a confusa claridade,
Lá vejo vir Soliso com seu gado;
Dele espero entender toda a verdade.

Mas não posso cuidar neste cuidado,
Que nos olhos não mostre onde me chega
A dor de o ver de dores traspassado.

Mas aquele, que a Amor cruel se entrega,
Não é muito que passe um tal tormento;
Porque todo mal dá, todo bem nega.

Enquanto este pastor o pensamento
Logrou, sem que em amores o empregasse,
Senão só em buscar contentamento;

Festa não se fazia em que faltasse
A sua frauta, que ele em si tangia,
Que outra nunca se ouviu que lhe igualasse.

Já agora não é aquele que soía;
Vejo-o na condição todo mudado;
Mudada também dele está a alegria.

Não cura já do seu querido gado;
Avorrecem-lhe as plantas, ervas, flores;
Avorrece-lhe a gente e o povoado.

Não lhe lembram as festas dos pastores;
Apartando se vai pola espessura,
Enlevado somente em seus amores.

Contenta-se da noute triste e escura;
Ódio tem com o sol puro e luzente.
Quem viu nunca tamanha desventura?

Com esta vai passando tão contente,
Que diz que, quando o mal mais o atormenta,
Se gosto sentir pode, então o sente.

Neste bosque ũa Ninfa se aposenta,
Por quem ele na vida anda morrendo;
E é causa desta dor que lhe contenta.

E segundo o que dele agora entendo,
Se a vista não me engana o pensamento,
Ou de vã fantesia estou pendendo;

Quando fora maior o grão tormento,
Que Soliso padece, não pudera
Igualar-se com seu merecimento.

Quero chegar-me a ele, enquanto espera
Que vá descendo o vagaroso gado;
Saberei dele o que saber quisera.

Venho, Soliso, a ti com um cuidado,
Que todo me entristece; e com grão medo
De grão mal sobre nós inopinado.

Vês tu como está agora este arvoredo
Triste e pesado, lúgubre e sombrio?
Como o vento parece que está quedo?

Vês a comum corrente deste rio
Que ora tanto se pára, ora anda tanto,
Deixando de seu curso o certo fio?

Vês como a Filomela deixa o canto,
Com que incita os pastores namorados,
E multiplica Progne o triste pranto?

E vês, enfim, por todos esses prados
Desmaiadas as ervas, que soíam
Viçoso pasto dar aos nossos gados?

Todos estes sinais, que não se viam
Nas Auroras a esta antecedentes,
Algum dano mortal nos anunciam.

Eu não sinto o que seja; se o tu sentes,
Não te seja o dizer-mo mui penoso;
E entenderei por ti tais acidentes.

SOLISO
Noutro tempo me fora deleitoso
Por extremo, Silvano, gosto dar-te;
Mas todo gosto agora me é nojoso.

Bem quisera poder comunicar-te
A causa deste horror; mas antes quero
Anojar-me a mi próprio, que anojar-te.

Porém, já sinto o fado tão severo,
Que quanto mais me ponho a declará-lo,
Mais então de entendê-lo desespero.

E se acaso o entender pera contá-lo,
Se quero começar, quer a ventura
À força de soluços atalhá-lo.

Que depois que me falta a fermosura
Daquela ilustre Ninfa, que contente
Pudera bem fazer a noute escura,

Foi-me faltando o esprito juntamente;
Em suspirar só gasto a noute e dia,
Sem me fartar de ver-me descontente.

SILVANO
Novidade maior em mi seria
O espantar-me de ver-te estar queixando,
Que o ver em ti desejos de alegria.

Responde-me ao que te ia perguntando
Da causa desta singular tristeza;
Não gastes todo o tempo lamentando.

SOLISO
Sempre em ti conheci ũa dureza,
E austera inclinação, que bem declara
Quão conforme é teu nome à Natureza.

Porque se o meu tormento te alcançara,
0 mor bem pera ti o mor mal fora;
E todo o mal maior te contentara.

Deixa que chore quem com gosto chora;
Deixa-me lamentar meu triste fado;
Que a um triste a hora de choro é milhor hora.

Tu não trazes agora outro cuidado
Mais que buscar no vale a sombra fria,
Quando te ofende o Sol mais empinado.

Coitado de quem passa a noute e dia
Porfiando em morrer, e a sorte dura
Em fugir-lhe coa morte só porfia!

Oh! fermosa Natércia! a excelsa altura
Do glorioso Olimpo andas pisando;
E eu ausente da tua fermosura!

SILVANO
Que é isso, que do céu estás falando?
Parece-me que já não és Soliso,
Ou que de puro amor vás delirando.

SOLISO
Quem já perdeu aquele doce riso,
Que siso produzia e dava vida,
Não é muito que perca a vida e siso.

SILVANO
Declara-me que cousa tens perdida,
De que tanto te queixas; que ao que sento,
Natércia destes vales é partida.

SOLISO
Quão livre fala aquele que o tormento
Alheio vê de fora, mas não sente
Onde chega tamanho sentimento!

A glória que eu perdi não me consente
Palavras naturais, rezões expertas,
Que possam declarar a dor presente.
Mas nesse teu error vejo que acertas;
Porque como nenhum mal deve turbar-se
Quem só dele esperanças logra certas.

SILVANO
A quem, Soliso meu, de declarar-se
Com outro em casos tais falta vontade,
Nunca faltam rezões pera escusar-se.

Não sei donde te vem tal novidade;
Pois negando-me agora o que te peço,
Suspeito que me negas a amizade.

Se pola que te guardo te avorreço,
Sabe que só um cego entendimento
Às amizades faz perder o preço.

Eu te deixarei só com teu tormento;
Mas não sem dor de ver que tanto a peito
Tomes um tão danoso pensamento.

SOLISO
Outra é, certo, a rezão, outro o respeito
Que negar-te me fez o que pedias;
Não creias que de ti tão mal suspeito.

Bem sei que o meu descanso pretendias;
E a mesma confiança faz negar-te
O que destes sinais saber querias.

SILVANO
Não queiras mais, Soliso, prolongar-te;
Pois pende o gosto meu da tua vida;
Se corres risco, dá-me dele parte.

SOLISO
De todo a sinto já desfalecida
Nas lembranças daquela breve história,
Que foi pera meus males tão comprida.

Já me vence a tristíssima memória
Da glória que presente me animava.
Quem pudera voar trás tanta glória!

Natércia que estes montes alegrava,
E que à casta Diana fez enveja,
E que com sua vista o Sol cegava;

Aquela a quem render-se só deseja
Aquele que de bela mãe presume,
E a quem as armas dá com que peleja;

Natércia, que no mundo foi um lume,
Onde a beleza de maior estado
Incêndios aprendia por costume;

Natércia, por quem ando acompanhado
De mágoa tal, que só da morte dura
Espero o feliz fim de meu cuidado;

Ao céu se foi com aquela fermosura,
Que era mostra do céu, glória da terra;
Que era o sujeito mor da mor ventura.

Já não fará no prado às almas guerra
Com a vista, senão com a lembrança;
Guerra em que o dano mais cruel se encerra.

Já de vê-la não tenhas esperança;
Que esta vida trocou de mal cercada
Por outra, em que do bem não há mudança.

E a causa vês aqui de que a alvorada
Visses desta manhã tão diferente
De outra qualquer; de ti mais ponderada.

Dezer-te o mais não posso, porque sente
Esta alma no que disse tal tormento,
Que esta memória apenas me consente.

O espírito já débil, sem alento,
No pouco que te tenho referido,
Nas asas se sustém do pensamento.

Oh! mundo! qual é aquele tão perdido,
Que em ti crê, qual aquele tão insano,
Vendo-te todo em dano instituído?

Deixas passar um gosto de ano em ano,
Porque, com nosso opróbrio e tua glória,
Nos faças mais patente o teu engano.

Sempre assi vai contigo a mor vitória,
Deixando-nos somente por herança
De um possuído bem triste memória.

Quem faz de ti algũa confiança,
Sabendo já que quem de ti confia,
De um engano penoso enfim se alcança?

Aquele da beleza novo dia
Cegaste, quando mais resplandecente
Triunfos mil de Amor nos prometia.

De qual tigre cruel peito inclemente
Não se rompe de mágoa, morta aquela,
Que a tristeza mil vezes fez contente?

Quem, que vê eclipsada a vista bela,
Depois de visto haver sua beldade,
E não sabe morrer por ir trás ela?

Como não te aplacou tão tenra idade
Ao cortar do seu fio, ó Parca dura,
Que agora o mundo matas de saudade?

Deixai, deixai, pastores, a verdura;
As frautas deixai já, e os mansos gados;
E chorai todos vossa desventura.

E vós, silvestres Faunos namorados,
Também chorar podeis, pois já perderam
O objecto mais gentil, vossos cuidados.

Ninfas, a quem os deuses concederam
Destes sagrados bosques a morada,
E em quem tamanhas graças esconderam;

Se aquela piadade costumada,
De que mais vos prezais, não esquecestes,
Que sempre foi de vós tão venerada;

Se já do alheio dano vos doestes
Do vosso próprio vos doei agora,
Pois com Natércia todo o bem perdestes;

Oh! Náiades! das águas saí fora!
E de vós, água saia em mal tão forte,
Pois de vê-lo também o monte chora.

Oh! Napeias! chorai a triste sorte
Dos míseros pastores, a quem nega
O fado por mais pena o mortal corte.

Oh Dríade! vós, a quem Amor se entrega,
Tomai todo o cuidado deste pranto,
Pois sabeis onde a causa dele chega,

Deixai, oh! Amadríades, entretanto
As plantas que guardais, por ajudar-me,
Pois deixa a Filomela o doce canto!

E vós, ó vida minha, pois curar-me
Já não podeis, deixai-me juntamente
Porque lembranças tais possam deixar-me.

Mas se delas morreis, morro contente.