Damas, as que inventais por ser galantes
Damas, as que inventais por ser galantes
Urracas, periquitos e toucados,
Garfos, topetes, nocos revirados,
Roletes, arandelas e turbantes;
Se de perlas, rubis e diamantes
Cobris os lindos gestos delicados,
Porque a peitos de neve congelados
Não buscais invenção de ser constantes?
Vestis os corpos só de mil primores,
Deixais as almas nuas aos coitados,
Que o nome têm de vossos servidores.
Guardai, pois, damas, lá os enfeitados,
Que eu com eles não quero andar de amores,
Que Amor quer outro amor, não engomados.
Reposta em Defensão
Quem diz que os periquitos e toucados
Faz nas damas perder honestidade,
Ou é por incerteza da verdade
Ou dos trajos de Momo andar trajado.
O ouro de mais cores esmaltado
Mais aviva o sentido, abre a vontade,
E mais realça à vista a variedade
Das flores com que Abril renova o prado.
A pedra que em si é preciosa
Se com arte não é perfeiçoada,
Fica de seus quilates nua e escassa.
Assi o afeite à dama faz airosa,
E à mais fermosa em si mais confiada,
Que a graça donde há graça dá mais graça.
