Crescendo vai meu mal de hora em hora
XVII
Crescendo vai meu mal de hora em hora,
Creio que quer Fortuna que pereça
Segundo contra mim sua roda guia,
Pois, se a vida faltar, a pena creça
Que por mui que creça, cruel Senhora,
Por fim, fim há-de ter sua porfia.
Que ganhas em perder-me?
Que perdes em valer-me
Se à custa de me olhares brandamente
Me podes ter contente?
E com me dares remédio, e bem-fazeres
Não deixarás por isso ser quem eres?
Se minha pena esquiva e meu tormento,
Te desse de alegria algũa parte,
Contente viveria assi penando,
Porque, como pretendo contentar-te,
Me estaria suavemente deleitando.
Mas, claramente estou de ti notando,
Nesses teus olhos belos
Se acerto ũa hora vê-los
Quão pouca conta tens com que padeço.
Ai! que mui bem conheço,
Senhora, que por meu destino e sorte
Tens essa condição tão dura e forte.
Um tigre, qualquer fera irracional,
Com sua asperidade tem amor,
E por ele vive em paz silvestremente;
As aves, a maior e a menor,
Todas com um instinto natural
Possuem amor e o têm naturalmente;
E tu, de perfeição tão excelente,
De tanta honestidade,
De tanta divindade,
De tanta galhardia e gentileza,
Somente tens crueza!
Creio que com rezão a ti compete
O nome de cruel Anaxarete.
Se cuidas que servir-te não mereço
Por minha indinidade e tua valia,
Engana-te, Senhora, o pensamento;
Que, se tens gentileza e galhardia,
Eu tenho fiel amor, de tanto preço
Que me iguala com teu merecimento.
Mas pouco presta ter tal fundamento,
Quem tem contrário o Fado;
Amar-te, me é forçado;
Teu merecer altivo me faz força;
Mas quanto mais me esforça
A fé de meu amor e confiança,
Mais me desdenhas tu com esquivança.
Que val' tua gentileza e alegre vista?
Que val' que sejas tão fermosa dama,
Se tudo tens em ti tão submergido?
A fresca flor, que coberta a rama,
A quem o tempo gasta sem ser vista,
Nenhua cousa presta haver nacido;
O ouro nada val', se está escondido
Em sua própria mina,
E não se tira e afina;
Nem a pérola em sua concha feia
Escondida na areia;
Porque, sem a humana companhia
Nenhũa cousa tem sua valia.
Assi, sua graça suma sobre-humana,
Angélica figura grave e honesta,
O preço perde estando em ti escondida;
Pois, teu cabelo de ouro e branca testa,
Rostro belo, florida idade ufana,
Gastas sem companhia em deserta vida.
Ó ingrata, cruel desconhecida!
O campo que merece,
Ou que te agradece,
Gastares nele idade tão sublime?
Dás-lhe o que não estima,
Dás-lhe, com larga mão o que me negas,
Enfim, a luz lhe dás, a mim as trevas.
Olha que com pressa o tempo voa,
E como, com corrida pressurosa,
Caladamente a fim tudo caminha;
Procura de gozar de tua pessoa;
Porque depois de seca a fresca rosa,
Sem preço e sem valia fica a espinha;
Confesso-te que a graça que ela tinha,
Se o tempo quis tirar-lha,
O mesmo torna a dar-lha;
E, se perde a sazão que a enobrece,
Ao outro ano reverdece;
Mas, tua sazão fresca se se perde,
Não cuides que jamais se torna verde.
Se te fez Natureza tão preclara,
Se te dotou de graça e perfeição,
Com ela não assanhes a Ventura;
Olha que estás agora em tua sazão,
Não sejas pera ti mesma avara;
Vê que a fruita há-de colher-se se é madura;
Se deixares murchar tua fermosura,
Que agora mal despendes,
Depois, se te arrependes,
O tempo, como corre à rédea solta,
Não torna mais a dar volta,
Nem nosso estado humano é tão felice
Que se renove assim como a Fenice.
Como posso esperar de ti piadade,
Se tu, com teu intento desumano,
Contigo mesmo usando estás crueza?
Claro está de meu mal o desengano;
Quem não terá pera si liberdade,
Mal poderá pera outrem ter largueza.
Mas, contudo, essa roda de aspereza
Espero que desande
E algũa hora abrande;
Porque, por tempo as feras das montanhas
Abrandam suas sanhas,
E o feroz cavalo, altivo, ufano,
Por tempo se submete ao uso humano.
Se pera atormentar-me estás contente,
Se pera crueldade tens tal posse,
A esperança em mim vive segura;
Porque, por tempo a romã se faz doce,
E, se quebra o forte diamante,
A água branda cava a pedra dura;
Quiçais permitirá minha ventura,
Que algum tempo veja
O bem que a alma deseja;
E no tempo brumal o céu espelhado
Não 'stá sempre ofuscado;
E às vezes o mar manso tem tormenta,
Mas escassa-se o vento, a fúria assenta.
Se de qualquer trabalho, pouco ou muito,
Senhora, galardão igual se espera,
E dar-se a quem o m'rece se costuma,
De meu amor constante e fé sincera,
Bem posso com rezão esperar fruito;
Se te ofendo com isto em cousa alguma,
A vida pois se gaste e se consuma
Em tão gentil demanda,
Pois que Amor o manda;
E se nela quiser Fortuna ou Fado,
Que seja de ti amado,
Não quero dele glória mais cumprida
E quando não, morrer por ti é vida.
Canção, perdida vás, mas mais perdido
Está quem te of'rece ao seco vento;
Pois, pera sentir males tem sentido,
E pera mais lhe falta o sentimento;
Sei, que queixas ao doente é concedido,
Queixar-se de seu mal, de seu tormento,
Portanto deixa-te ir, e donde fores
Publica meu tormento e mal de amores.
