Campos bem-aventurados

MOTE ALHEIO
Campos bem-aventurados,
Tornai-vos agora tristes,
Que os dias em que me vistes
Alegre, já são passados.

GLOSA
Campos cheios de prazer,
Vós, que estais reverdecendo,
Já me alegrei com vos ver;
Agora venho a temer
Que entristeçais em me vendo.
E, pois a vista alegrais
Dos olhos desesperados,
Não quero que me vejais,
Pera que sempre sejais,
Campos bem-aventurados.

Porém, se por acidente
Vos pesar de meu tormento,
Sabereis que Amor consente
Que tudo me descontente,
Senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
Que já nos meus olhos vistes
Mais alegria que medos,
Se mos quereis fazer ledos,
Tornai-vos agora tristes.

Já me vistes ledo ser;
Mas depois que o falso Amor
Tão triste me fez viver,
Ledos folgo de vos ver,
Porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
De minha dor me sentistes,
Julgai quanto mais desejo
As horas que vos não vejo,
Que os dias em que me vistes.

O tempo, que é desigual,
De secos, verdes vos tem;
Porque em vosso natural
Se muda o mal pera o bem,
Mas o meu pera mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
Pelos tempos diferentes
Que de Amor me foram dados,
Tristes, aqui são presentes;
Alegres, já são passados.