Cá nesta Babilónia adonde mana
Cá nesta Babilónia adonde mana
Hipocrisia, engano e falsidade;
Cá donde ousada toda carne humana
A todo arbítrio vive da vontade;
Cá donde enrouqueceu da Lusitana
Musa o furor heróico e suavidade;
Cá donde se produz por cega via
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá donde o puro Amor não tem valia,
Porque Baco o tem hoje desterrado;
Cá donde a frecha de ouro não feria,
Senão cabelo preto e alfenado;
Cá donde a loura trança não se via,
Nem o rostro de sangue matizado;
Cá donde nada vale a glória humana,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá donde o mal se afina, o bem se dana,
Se algum a terra em si quer produzir;
Cá donde a falsa gente maometana
A glória toda funda em adquirir;
Cá donde multiplica a mão tirana,
Professa em mais crecer, matar, mentir;
Cá donde o fazer bem é vilania,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá donde a errada e cega monarquia
De fabulosas leis está vivendo,
E à força dum amor engrandecia
O nefando Alcorão em que está crendo;
Cá donde nada vale a Poesia,
E se está da lei dela escarnecendo;
Cá donde a fidalguia maometana
Cuida que um nome vão a Deus engana.
Cá nesta Babilónia, onde a nobreza
Da Lusitana gente se perdeu;
E do grão Sebastião toda a grandeza
Irreparavelmente se abateu;
Cá donde algum mentir não é baixeza,
E os méritos esmola (assi creceu
Da cobica mortal a sem-razão)
Co esforço e saber, pedindo vão.
Às portas da cobiça e da vileza
Estes netos de Agar estão sentados
Em bancos de torpíssima riqueza,
Todos de tirania marchetados.
É de feio Alcorão suma a largueza
Que tem pera que sejam perdoados
De quantos erros cometendo estão
Cá neste escuro caos de confusão.
Cumprindo o curso estou da Natureza,
Ilustre Dama, neste labirinto;
Mas quem usa comigo mais crueza,
É tua condição, que n'alma sinto.
Acabe-se algum dia tal tristeza,
E este sentido mal que em versos pinto:
E pois n'alma é sentido e coração,
Vê se me esquecerei de ti, Sião.
