Auto del Rei Seleuco
Comédia del rei Seleuco de Luís de Camões.
Diz logo o Mordomo, ou dono da casa:
Eis, senhores: o autor, por me honrar nesta festival noite, me quis representar ũa farsa e diz que, por se não encontrar com outras já feitas, buscou uns novos fundamentos para a quem tiver um juízo assi arrezoado satisfazer. E diz que quem se dela não contentar, querendo outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos escudeiros da Castanheira ou d’Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do boticário, e não lhe faltará que conte. Porém diz o autor que usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto à obra se não parecer bem a todos, o autor diz que entende dela menos que todos os que lha puderem ẽmendar. Todavia, isto é para praguentos, aos quais diz que responde com um dito de um filósofo que diz: Vós outros estudastes para praguejar, e eu para desprezar praguentos. E contudo quero saber da farsa em que ponto vai. Moço, Lançarote.
Moço: Senhor.
Escudeiro: São já chegadas as figuras?
Moço: Chegadas são elas quasi ao fim de sua vida.
Escudeiro: Como assi?
Moço: Porque foi a gente tanta que não ficou capa com frisa, nem talão de sapato que não saísse fora do couce. Ora vieram uns embuçadetes, quiseram entrar por força, ei-lo arrancamento na mão. Deram ũa pedrada na cabeça ao Anjo e rasgaram ũa meia calça ao Ermitão, e agora diz o Anjo que não há de entrar até lhe não darem ũa cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não porem ũa estopada na calça. Este pantufo se perdeu, assi mande-o vossa mercê domingo apregoar nos púlpitos, que não quero nada do alheo.
Escudeiro: Se ela fora outra peça de mais valia, tu botaras a conciência pela porta fora para a meteres em tua casa.
Moço: Oh se o ela fora, mais conciência seria torná-la a seu dono, quem a havia mister para si.
Escudeiro: Ora vem cá. Vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá auto com grande fogueira, que se venha sua mercê para cá e que traga consigo o senhor Romão d’Alvarenga, para que sobre o cantochão botemos nosso contraponto de zombaria. Ouves Lançarote? Ir-lhe-ás abrir a porta do quintal, por que mudemos o vinte aos que cuidam de entrar por força.
Indo-se o Moço, diz:
Chichelo de judeu, assi como foste pantufo, que te custava ser ũa bolsa com um par de reales, que são bons para escudeiro hipócrita, que são muito e valem pouco?
Escudeiro: Moço, que estás fazendo que não vás?
Moço: Senhor, estou tardando e porém estou cuidando que se agora fora aquele tempo em que corriam as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para ũas palmilhas. Mas já que assi é, diga-me vossa mercê que farei deste.
Escudeiro: Oh fi de puta bargante, esperai, que estoutro vo-lo dirá.
Faz que lhe atira com outro pantufo. Vai-se o Moço e diz o Escudeiro:
Não há mais mau conselho que ter um vilão destes mimoso, porque logo passam o pé além da mão, zombam assi da gravidade de seu amo. Mas tornando ao que importa, vossas mercês é necessário que se cheguem uns para os outros, para darem lugar aos outros senhores que hão de vir, que doutra maneira, se todo o corro se há de gastar em palanques, será bom mandar fazer outro Alvalade. E mais, que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal. Este só desgosto tem um auto, que é como ofício de alcaide, ou haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por vilão ruim.
Entra Martim Chinchorro, falando com outro escudeiro por nome Ambrósio, e diz o Martim Chinchorro:
Entre vossa mercê.
Ambrósio: Dias há, senhor, que ando de quebras com cortesias e por isso vou diante. Bejo as mãos a vossa mercê. A verdade é esta: passear com casa juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas. Além disso, auto para esgaravatar os dentes. Esta é a vida de que se há de fazer conciência.
Escudeiro: Senhor, o descanso dizem lá que se há de ter enquanto homem puder, porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu nome é.
Martim: Ora pois, senhor, o auto dizem que é tal? Porque um auto enfadonho traz mais sono consigo que ũa pregação comprida.
Escudeiro: Senhor, por bom mo venderam e eu o tomei à cala de sua boa fama. E se tal é, eu acho que por outra parte não há tal vida como ouvir um vilão que arranca a fala da garganta mais sem sabor que ũa pêra-pão e ũa donzela que vem mais podre de amor, falando como apóstolo, mais piadosa que ũa lamentação.
Martim: Para estes tais é grande peça rapaz travesso com molho de junco, por que não andem mais ao coscorrão, mais roucos que ũa cigarra, trazendo de si enfadamento.
Moço: Oulá, senhores. Pedem as figuras alfinetes para toucarem um escudeiro. Ora sus, há i quem dê mais? Que ainda vos veja todas a mim às rebatinhas. Ora sus, venham de mano em mano, ou de mana em mana.
Escudeiro: Moço, fala bem ensinado.
Moço: Senhor, não faz ao caso, que os erros por amores tem privilégio de moedeiro.
Ambrósio: Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardará muito por entrar.
Moço: Perece-me, senhor, que antes que amanheça começarão.
Ambrósio: Oh que salgado moço, zombas de mim? Vem cá, donde és natural?
Moço: Donde quer que me acho.
Ambrósio: Pergunto-te onde naceste.
Moço: Nas mãos das parteiras.
Ambrósio: Em que terra?
Moço: Toda a terra é ũa, e mais eu naci em casa assobradada, varrida daquela hora, que não havia palmo de terra nela.
Martim: Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize, cujo filho és? É para ver com que disparate respondes.
Moço: A falar verdade, parece-me a mim que eu sou filho de um meu tio.
Martim: Vem cá. De teu tio? E isso como?
Moço: Como? Isto, senhor, é adevinhação que vossas mercês não entendem. Meu pai era clérigo, e os clérigos sempre chamam aos filhos sobrinhos, e daqui me ficou a mim ser filho de meu tio.
Martim: Ora te digo que és gracioso. Senhor, donde houvestes este?
Escudeiro: Aqui me veio às mãos sem piós nem nada, e eu por gracioso o tomei. E mais tem outra cousa, que ũa trova fá-la tão bem como vós, ou como eu, ou como o Chiado.
Ambrósio: Não. Quant’a disso nós havemos-lhe de ver fazer algũa cousa, enquanto se vestem as figuras, ainda que, para que é mais auto que vermos a este?
Escudeiro: Vem cá, Moço. Dize aquela trova que fizeste à moça Briolanja, por amor de mim.
Moço: Senhor, si, direi. Mas aquela trova não é senão para quem a entender.
Martim: Como, tão escura é ela?
Moço: Senhor, assi a sei eu escrever e a fiz na memória, porque eu não sei escrever senão com carvão, e porém diz assi:
Per amor de vós, Briolanja
ando eu morto,
pesar de meu avô torto.
Martim: Oh como é galante, que descuido tão gracioso. Mas vem cá. Que culpa te tem teu avô nos disfavores que te tua dama dá?
Moço: Pois, senhor, se eu houve de pesar de alguém, não pesarei eu antes dos meus parentes que dos alheios?
Escudeiro: Pois ouçam vossas mercês a volta, que é mais cheia de gavetas que a trombeta de Sereníssimo de la Valla.
Moço: A volta, senhores, é mui funda e parece-me, senhores, que nem de mergulho a entenderão, e por isso mandem assoar os engenhos e metam mais ũa sardinha no entendimento. E pode ser que com esta servilha lhe calçará melhor, e todavia palra assi:
Vossos olhos tão daninhos
me trataram de feição
que não há em meu coração
em que atem dous réis de cominhos.
Meu bem anda sem focinhos
por vós morto
pesar de meu avô torto.
Martim: Ora bem, que tem de ver os cominhos com o teu coração?
Moço: Pois, senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedela não se podem comer senão com cominhos. E mais, senhores, minha dama era tindeira, este é o verdadeiro entendimento.
Martim: E aquela regra que diz «meu bem anda sem focinhos» me dá tu a entender, que ela não dá nada de si.
Moço: Nunca vossas mercês ouviram dizer:
Meu bem e meu mal
lutaram um dia
meu bem era tal
que meu mal o vencia?
Pois desta luta foi tamanha a queda que meu bem deu entre ũas pedras, que quebrou os focinhos. E por ficarem tão esfarrapados, porque lhe não podiam botar pedaço, por conselho dos físicos lhos cortaram por lhe neles não saltarem herpes, e daqui ficou: meu bem anda sem focinhos, como diz o texto.
Ambrósio: Tu fazes já melhores argumentos que moços do estudo por dia de são Nicolau.
Martim: Senhor, aquilo tudo é bom engenho. Este moço é natural para lógico.
Moço: Quê, senhor, natural para lójia? Si, mas não tão fria como vossas mercês.
Escudeiro: Parece-me, senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por baixo desta mesa, e ouçamos este representador, que vem mais amorlotado dos encontros que um capuz roxo de piloto que sai em terra e o tira d’arca de cedro.
MartimSenhor, ele parece que aprende a cirugião.
Ambrósio: Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos verdes.
Escudeiro: Enfim, parece figura d’auto, em verdade.
Entra o representador.
É lei de direito assaz verdadeira
julgar por si mesmos aquilo que vem
porque eu cuido que eu zombo d’alguém
e cuido que zombam da mesma maneira.
E se a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer, seu próprio engano, por grande que seja...
Ora, senhores, a mi me esquece o dito todo de ponto em claro, mas não sou de culpar, porque não há mais que três dias que mo deram. Mas em breves palavras direi a vossas mercês a suma da obra: ela é toda de rir, do cabo até à ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzelas que vão fugidas de casa de seus pais, e vão com cabazes apanhar azeitona. E trás elas vem logo oito mundanos, metidos em um covão, cantando: quem os amores tem em Sintra. E depois de cantarem farão ũa dança de espadas, cousa muito para ver. Entra mais el rei dom Chancho, bailando os machatins, e entra logo Caterina Real com uns poucos de parvos nũa joeira e semeá-los-á pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o auto, com música de chocalho e bozinas, que Cupido vem dar a ũa alfeloeira a quem quer bem, e ir-se-ão vossas mercês cada um para suas pousadas ou consoarão cá connosco disso que aí houver. Parece-me que nenhum diz que não. Ora pois ficareis em vano laboraverunt, porque até ‘gora zombei de vós, por me forrar do erro da representação, como quem diz: digo-te, antes que mo digas.
Ambrósio: Ora vos digo, senhores, que, se as figuras são todas tais, que acertariam em errar os ditos, ainda que me parece que este o não fez, senão a ser mais galante. Mas se assi é, ela é a melhor invenção que eu vi, porque já agora representações, todas é darem por praguentos, e são tão certas, que é melhor errá-las que acertá-las.
Escudeiro: Parece-me que entram as figuras de siso. Vejamos se são tam galantes na prática como nos vestidos.
Entra el Rei Seleuco, com a Rainha Estratónica.
Rei: Senhora, dês que a ventura
me quis dar-vos por molher
me sinto ẽmeninecer
porque em vossa fermosura
perde a velhice seu ser.
Um homem velho, cansado
não tem força nem vigor
para em si sentir amor
se não é que estou mudado
com ser vosso noutra cor.
Muito grande dita tem
a molher que é fermosa.
Rainha: Senhor, grande. Mas porém
se a tal é virtuosa
quer-lhe a ventura mor bem.
Rei: Si, mas porém nunca vemos
a natureza esmerar
donde haja que tachar
que quando ela faz extremos
em tudo quer-se extremar.
Eu falo como quem sente
em vós esta calidade
pelo que vejo presente
e se me esta mostra mente
mente-me a mesma verdade.
Ũa só tristeza sento
que não tem a meninice
que no mor contentamento
o trabalho da velhice
me embaraça o sentimento.
Rainha: Senhor, novidades tais
far-me-ão crer de verdade.
Rei: Novidades lhe chamais
folgo, senhora, que achais
na velhice novidades.
Rainha: Senhor, dias há que sento
no príncipe Antioco
certo descontentamento
dera algũa cousa a troco
por saber seu sentimento
vejo-lhe amarelo o rosto
ou de triste ou de doente
ou ele anda mal-disposto
ou lá tem certo disgosto
que o não deixa ser contente.
Mande senhor, vossa alteza
a chamá-lo por alguém
saberemos que mal tem
se é doença de tristeza
de que nace ou de que vem.
Rei: Certo que eu me maravilho
do que vos ouço dizer.
Que mal pode nele haver?
Ide dizer a meu filho
que me venha logo ver.
Rainha: Se curar não se procura
ũa cousa destas tais
vem depois a crecer mais.
Quando já se não acha cura
toda a cura é por demais.
Entra o Príncipe Antioco, com seu pajem por nome Leocádio.
Príncipe: Leocádio se és avisado
e não te falta saber
saber-me-ás dar a entender:
quem ama desesperado
que fim espera de haver?
Pajem: Senhor, não.
Mas porém por que razão
lhe vem sabê-lo, ou de quê?
Príncipe: Pergunto-te a conclusão
não me perguntes porquê
porque é minha pena tal
e de tão estranho ser
que me hei de deixar morrer
e por não cuidar no mal
o não ouso de dizer.
Que maneira de tormento
tão estranho e evidente
que nem cuidar se consente
porque o mesmo pensamento
há medo do mal que sente.
Pajem: Não entendo a vossa alteza.
Príncipe: Assi importa à minha dor.
Pajem: E por que rezão, senhor?
Príncipe: Para que seja a tristeza
castigo de meu temor.
Porque ordena
o amor que me condena
que se haja de sentir
e sem dizer nem ouvir.
Bem-aventurada a pena
que se pode descobrir.
Oh caso grande e medonho
oh duro tormento fero
verdade é isto que eu quero?
Não é verdade mas sonho
de que acordar não espero.
Quero-me chegar a el Rei
meu pai, que já me está vendo.
Mas onde vou? Não m’entendo.
Com que olhos olharei
um pai a quem tanto ofendo?
Que novo modo de antolhos
porque neste atrevimento
divera meu sentimento
para ele não ter olhos
nem para ela pensamento.
Chega aonde está el Rei e diz el Rei:
Filho, como andais assi
que tanto disgosto tomo
de vos ver como vos vi?
Príncipe: Não sei eu tanto de mi
que possa saber o como.
Dias há senhor que ando
mal-disposto sem saber
este mal que possa ser
que se nele estou cuidando
quasi me vejo morrer.
Rei: Pois filho será razão
que meus físicos vos vejam.
Príncipe: Os físicos, senhor, não
que os males que em mi estão
são curas que me sobejam.
Rainha: Deite-se que na verdade
um corpo deitado e manso
descansa à sua vontade.
Príncipe: Senhora, esta enfermidade
não se cura com descanso.
Rainha: Todavia bom será
que lhe façam ũa cama.
Príncipe: Um coxim abastará
que assi não descansará
o repouso de quem ama.
Rei: Vamos filho para dentro
enquanto a cama se faz.
Repousai como capaz
que a mi me dá cá no centro
a pena que assi vos traz.
Vão-se e vem ũa Moça a fazer a cama, e diz:
Mimos de grandes senhores
e suas extremidades
me hão de matar de amores
porque de meros dulçores
adoecem.
Então logo lhe parecem
aos outros que são mamados
e os que são mais privados
sobre eles estremecem.
Certo e assi Deos me ajude
que são muito graciosos
porque de meros viçosos
não podem com a saúde.
Mas deixá-los
porque eles darão nos valos
donde mais não se erguerão
inda que lhe dem a mão
os seus privados vassalos.
Entra um Porteiro da cana e bate primeiro, e diz:
Trás, trás, trás.
Moça Jesu, quem está aí?
PorteiroJá vós, mana, éreis mamada
para vos levar furtada
nunca tal ensejo vi
e vós estais descuidada.
Moça: E meus descuidos que fazem?
Porteiro: Vossos descuidos, cadela?
Ah minha alma, sois tão bela
que esses descuidos me trazem
dous mil cuidados à vela
pois sou vosso há tantos anos
mana tirai os antolhos
e vereis meus tristes danos.
Moça: Não tenhais esses enganos.
Porteiro: Nem vós tenhais esses olhos
que de vossos olhos vem
esta minha pena fera.
Moça: De meus olhos?
Porteiro Assi era.
Moça que tais olhos tem
nenhuns olhos ver divera.
Moça: E porquê?
Porteiro: Porque cegais
a quantos olhos olhais
posto que por vós padecem.
Olhos que tão bem parecem
por que não nos castigais?
Moça: Deos dê siso pois de vós
tirou o que aos outros deu.
Porteiro: Desatai-me lá esses nós.
Que mais siso quero eu
que não ter siso por vós?
Moça: Falais d’arte, eu vos prometo
que a reposta vem à vela.
Porteiro: Isso é olho de panela.
Moça: Quanto há que sois discreto?
Porteiro: Quanto há que vós sois bela?
Moça: Dais-me logo a entender
que eu sou fea, a meu ver.
Porteiro: E isso por que o entendeis?
Moça: Porquê? Porque me dizeis
que só de meu parecer
vos procede o que sabeis.
Porteiro: É verdade.
Moça: Pois bem sento
que o vosso saber é vento
fica a cousa declarada
meu parecer não ser nada
Porteiro: Olhai aquele argumento
além de bela, avisada.
Oh nem tanto nem tão pouco
vede vós o que falais.
Moça: Cego no saber andais.
Porteiro: No siso, mas não tão louco
como vós, mana, cuidais.
Ora dizei, duna má,
que não amais quem vos ama?
Moça: Ouvistes vós cantar já
Velho malo em minha cama?
Já me entendereis.
Porteiro: Ah, ah,
senhora, estais enganada,
que com ũa capa e espada
e com este capuz fora...
Moça: Ora bem, tirai-o ora
e fazei ũa levada.
Porteiro: Não, se me eu hoje alvoroço
achar-me-eis doutra feição.
Aqui tira o capuz e diz:
Tenho má disposição?
Estas obras são de moço
se as mostras de velho são.
Moça: Tendes mui gentis meneos.
Porteiro: Não senhora. Faço extremos.
Moça: Passeai ora, veremos
se tendes tão bons passeos.
Porteiro: Tudo senhora faremos.
Moça: Virai ora a essoutra mão.
Porteiro: Esta disposição vede-a
que tenho gentil feição.
Moça: Tendes vós mui boa rédea.
Sofreis ancas?
Porteiro: Isso não.
Moça: Por certo que tendes graça
em tudo quanto fizerdes
fazei mais o que souberdes.
Porteiro: Não sei cousa que não faça
senhora por me quererdes.
Moça: Tendes vós muito bom ar.
Porteiro: Mais, que isto faz quem quer bem.
Moça: I-vos asinha, que vem
o Príncipe a se deitar.
Porteiro: Nunca ũa pessoa tem
ũa hora para falar.
Entra o Príncipe com o seu pajem Leocádio, e diz:
Seja a morte apercebida
porque já o amor ordena
a dar a meu mal saída
por que o fim da minha vida
o seja da minha pena
não tarde para tomar
vingança de meu querer
pois não se pode dizer
que não tem já que esperar
nem com que satisfazer.
Os físicos vem e vão
sem saberem minhas mágoas
nem o pulso me acharão
e se o querem ver nas águas
as dos olhos lho dirão
se com sangrias também
procuram ver-me curado
o temor de meu cuidado
o mais do sangue me tem
nas veas todo coalhado.
Quero-me aqui encostar
que já o espírito me cai.
Leocádio, vai-me chamar
os músicos de meu pai
folgarei de ouvir cantar.
Aqui se deita como que repousa, e fala dizendo assi:
Senhora, qual desatino
me trouxe a tanta tristura?
Foi, senhora, porventura
o terço do meu destino
como vossa fermosura.
Bem conheço que não posso
ter tão alto pensamento
mas disto só me contento
que se paga com ser vosso
o mor mal de meu tormento.
Entram os músicos, e diz Alexandre da Fonseca, um deles:
Senhor, de que se acha mal
o Príncipe ou que mal sente?
Pajem: Senhor, sei que está doente
mas sua doença é tal
que entender se não consente.
Os físicos vem e vão
uns e outros ameúde
sem o poderem dar são.
Quanto mais cura lhe dão
então tem menos saúde
o pai anda em sacrifícios
aos deoses que lhe dem
a saúde que convém
dizendo que por seus vícios
o mal a seu filho vem.
Eu sospeito que isto são
alguns novos amorinhos
que terá no coração.
Alexandre: Amores, com quem serão
que lhe não dem de focinhos?
Porteiro: Senhores, que lhe parece
da doença de Antioco?
Alexandre: Diga-lha quem lha conhece.
Pajem: Que toma morrer a troco
de calar o que padece.
Porteiro: Isso é estar emperrado
na doença, que é pior.
Tem-no os físicos curado?
Alexandre: Oh que de mal del amor
no ha, señor, sanador.
Porteiro: Falais como experimentado
que eu cuido que esta fadiga
que o faz que desespere
Y por más tormento quiere
que se sienta y no se diga.
Alexandre: Pois senhor isso assele
porque a pena que sabeis
que eu cuido que está nele
dar-lhe-á penas cruéis
pues no hay quien las consuele.
Porteiro: Folgo porque me entendeis.
Pajem: Hemo-nos, senhores, de ir
porque nos está esperando.
Porteiro: Pois eu também hei de ir
que não me posso espedir
donde vejo estar cantando.
Príncipe: Cantai por amor de mi
algũa cantiga triste
que todo meu mal consiste
na tristeza em que me vi.
Porteiro: Mande-lhe cantar um chiste.
Alexandre: Chiste não que é desonesto
e não tem esses extremos.
Outro canto mais modesto
porém não sei que diremos.
Pajem: Gãoleão o dirá presto.
Porteiro: Dá licença vossa alteza
que diga minha tenção?
Príncipe: Dizei, seja em cantochão.
Porteiro: Pois crede que é sutileza
que os anjos a comerão.
Digam esta:
Enforquei minha esperança
e o amor foi tão madraço
que lhe cortou o baraço.
Alexandre: Não me parece essa boa.
Porteiro: Haja eu perdão.
Alexandre: Porque não a entenderão.
Porteiro: Entender? Bofá que é boa
não lhe caís na feição?
Alexandre: Dizei ora outra melhor
com que nos atarraqueis.
Porteiro: Ora esperai e ouvireis.
Se a esta não dais louvor
quero que me degoleis.
Cantiga:
Com vossos olhos Gonçalves
senhora, cativo tendes
este meu coração mendes/Mendes.
Alexandre: Essa parece mui taibo
porque mostra bom indício.
Porteiro: Vós cuidareis que eu que raivo.
Alexandre: Todavia tem mau saibo.
Ora mal lhe corre o ofício.
Príncipe: Tá, não vá mais por diante
a zombaria que é má.
Cantai qualquer delas já
que esse Porteiro é galante
ninguém o contentará.
Aqui cantam, e em acabando diz o Pajem:
Parece que adormeceu.
Porteiro: Pois será bom que nos vamos.
Alexandre: Senhor, quer que nos vejamos?
Porteiro: Senhor, vir-me-á do céu.
Releva-me que o façamos.
Entra a Rainha com ũa sua criada por nome Frolalta, e diz a Rainha:
Frolalta, como ficava
Antioco em te tu vindo?
Frolalta: Ficava-se despedindo
da vida que então levava
e assi seus dias comprindo.
Rainha: Oh grave caso de amor
desesperada afeição
oh amor sem redenção
que ali te fazes maior
onde tens menos razão.
No mais alto e fundo pego
ali tens maior porfia
razão de ti não se fia.
Quem te a ti chamou cego
mui bem soube o que dizia.
Porventura ia chorando?
Frolalta: Chorando ia, chamando
ó amor, amor cruel
e em, senhora, se deitando
lhe caiu este papel.
Rainha: Que papel?
Frolalta: Este, senhora.
Rainha: Amostra que quero lê-lo.
Agora acabo de crê-lo
que ao que mostra por fora
aqui lhe lançou o selo.
Aqui lê o papel, e diz:
Oh estranha pena fera
desditosa vida cara
oh quem nunca cá viera
e com seu pai não casara
ou em casando morrera.
Frolalta: Ainda que eu, pes’a são
senhora, tudo bem vejo
atente que na eleição
o que lhe pede o desejo
não consente o coração.
Rainha: Frolalta, pois que és discreta
nada te posso encobrir
porque se queres sentir
a ũa molher discreta
tudo se há de descobrir.
O dia que entrei aqui
que a Seleuco recebi
logo nesse mesmo dia
no Príncipe filho vi
os olhos com que me via.
Este princípio sofri-lho
para ver se se mudava
antes mais se acrecentava.
Eu amava-o como filho
e ele doutra arte me amava.
Agora vejo-o no fim
por se me não declarar.
Pois que já a isso vim
a morte que o levar
me leve também a mim
porque já que minha sorte
foi tão crua e desabrida
que me não quer dar saída
sejamos juntos na morte
pois o não somos na vida.
Oh quem me mandou casar
para ver tal crueldade
ninguém venda a liberdade
pois não pode resgatar
onde não tem a vontade
que não há mor desvario
que o forçado casamento
por alcançar alto assento
que enfim todo o senhorio
está no contentamento.
Não sei se o vá ver agora
se será tempo conforme
ou se imos a desora.
Frolalta: Depois iremos, senhora
que agora dizem que dorme.
Entra o Físico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:
Su madrastra oyó nombrar
y el pulso se le alteró
esto no entiendo yo
porque para le alterar
el corazón le obligó.
Pues que el corazón se altere
es porque en un momento
algún nuevo vencimiento
de afición terrible le hiere
que causa tal movimiento.
Pues qué afición cabe así
con madrastra? Digo yo
dos razones hay aquí
la una dice que sí
la otra dice que no.
Empero yo determino
de exprimentar la verdad
y hacer una habilidad
que declare es agua o vino
esta su enfermedad
porque toda esta mañana
tengo estudiado su mal
sin ver causa efectual
de su dolencia inhumana
ni otra de su metal.198’
Llamar quiero este asnejón
mas aun debe de dormir
según que es dormilón.
Oh Sancho, oh Sancho.
Sancho: Ah señor, ah señor.
Físico: Ea, aún estás dormiendo?
Sancho: Estoyme, señor, vestiendo.
Físico: Pues, bellaco y sinsabor
no me respondes dormiendo?
Vestíos presto, ladrón
oh qué mozo y qué ventura.
Sancho: Mas qué amo y caratón
envíeme el ropón
que no hallo mi vestidura.
Físico: Que envíe el ropón acá?
Parece que os desmandáis.
Sancho: Que vaya, señor, ah, ah.
Entra o Moço embrulhado em ũa manta, e diz:
Que buenos días hayáis.
Físico: Di, cómo vienes así
con la manta y para qué?
Sancho: Yo, señor, se lo diré:
por venir presto vestí
lo que más presto hallé
porque viendo que él me llama
dormiendo yo sin afán
salté presto de la cama
que parezco un gavilán
hermoso como una dama.
Físico: Mas es tu bobedad tanta
que vienes desa fición?
Sancho: De mi vestido se espanta?
De noche sirve de manta
y de día de ropón.
Físico: Envióme el Rey a llamar
otra vez.
Sancho: Y a mí?
Físico: Y a ti.
Sancho: Y él que presta allá sin mí?
Físico: Qué puedes tu aprovechar?
Sancho: Yo se lo diré de aquí:
si por la ventura quiere
para que le dé consejo
cuando doliente estuviere
digo: coma si pudiere
y beba buen vino anejo.
Porque éste es el licor
que da fuerza y es sabroso
que según dicen señor
vino letificat cor
hominis y le es provechoso.
Físico: Ya sabes la medicina
que Avicena nos refiere.
Sancho: Pues señor porque es divina.
Pero el Rey qué le quiere
qué manda o qué determina?
Físico: El Príncipe está doliente.
Sancho: Oh mezquino y qué mal ha?
Físico: Y a ti necio qué te va?
Sancho: Oh señor que es mi pariente.
Físico: Gracioso el bobo está.
Y pues dime por tu fe
llorarás si se moriere?
Sancho: No lloraré
empero, señor, haré
la peor cara que pudiere.
Físico: Ea bobo ve corriendo
y ensilla la mula aína.
Sancho: Mula viene ensillar mejor.
Físico: Oh bellaco y sinsabor.
Sancho: Yo por cierto no lo entiendo.
Pero una melecina
le he de pedir Dios queriendo
porque ando atribulado
y no sé parte de mí
con este nuevo cuidado
para un sayo esfarrapado
que me dicen hay allí.
Físico: Ora ensilla y nunca viva
pues sufro tus desatinos.
Sancho: Señor, pasión no reciba
Ya cabalga Calaynos
a la sombra de una oliva.
Aqui se sai bolindo com a almofaça, e acorda o Príncipe e diz:
Príncipe: Oh bela vista e humana
por quem tanto mal sostenho
oh princesa soberana
como nos braços vos tenho
ou este sonho me engana?
Pois como sonho também
me queres vir magoar
e para me atormentar
mostras-me a sombra do bem
para assi mais me enganar?
Assi que conquanto canso
já não posso achar atalho
pois que o sono quieto e manso
que os outros tem por descanso
me vem a mim por trabalho
pois há i tantos enganos
que condenam minha sorte
não o tenho já por forte
se à volta de tantos danos
viesse também a morte.
Aqui entra el Rei com o Físico, e diz el Rei:
Andai e vede se achais
o rasto deste segredo
que me dizem que alcançais
ainda que tenho medo
que lhe seja por demais.
Físico: Plega a Dios que aquesto sea
para salud y remedio
desta dolencia tan fea.
Yo buscaré todo el medio
que presto sano se vea.
Aqui lhe toma o Físico o pulso e diz:
Afloxen señor sus ays.
Cómo se halla en su penar?
Príncipe: Como me acho perguntais?
E como se pode achar
quem sempre se perde mais?
Físico: La respuesta abre el camino.
Imagina de contino?
Príncipe: Não tenho outro mantimento
nem outro contentamento
senão o que em mi imagino.
Aqui entra a Rainha e diz:
Como se sente senhor?
Tem a febre mais piquena?
Príncipe: Responda-lhe minha pena.
Físico: Conocido es su dolor
ora sea enhorabuena
tomada está la tristeza
a las manos. Que sentió?
Usaré de sutileza.
Diz contra el Rei:
Cúmpleme que solo yo
platique con vuestra alteza.
Rei: Cheguemo-nos para cá.
Rainha: Não deve desesperar
que enfim, se bem atentar
para tudo o tempo dá
tempo para se curar.
Príncipe: Que cura poderá ter
quem tem a cura senhora
no impossível haver?
Rainha: Ficai-vos senhor embora
que vos não sei responder.
Vai-se a Rainha e diz el Rei:
Neste mal que não comprendo
que meio dais de conselho?
Físico: Señor, nada entiendo dello
y puesto que lo entiendo
yo quisiera no entendello.
Rei: Porquê?
Físico: Porque tengo entendido
lo más malo de entender
para lo que puede ser
porque anda, señor, perdido
d’amores por mi mujer.
Rei: Santo Deos que tal amor
lhe dá doença tão fera
que remédio achais melhor?
Físico: Forzado será que muera
por que no muera mi honor.
Rei: Pois como a um só herdeiro
deste reino não dareis
vossa molher? Pois podeis
que tudo faz o dinheiro
pois este não o enjeiteis
dai-lha, porque eu espero
de vos dar dinheiro e honra
quanto eu para ele quero.
Físico: No tira el mucho dinero
la mancha de la deshonra.
Rei: Ora bem pouco defeito
é pequice conhecida
quando deixa de ser feito
porque com ele dais vida
a quem vos dará proveito.
Físico: Cuán fácilmente aporfía
quien en tal nunca se vio.
Del consejo que me dio
vuestra alteza que haría
si agora fuese yo?
Rei: A molher que eu tivesse
dar-lha-ia. Oxalá
que ele a Rainha quisesse.
Físico: Pues déla si le parece
que por ella muerto está.
Rei: Que me dizeis?
Físico: La verdad.
Rei: Sem dúvida tal sentistes?
Físico: Sin duda, sin falsedad.
Pues, señor, ahora tomad
los consejos que me distes.
Rei: Certamente que eu o via
em tudo quanto falava.
Como o vistes? Por que via?
Físico: Nel pulso que se alteraba
si la vía o si la oía.
Rei: Que maneira há de haver?
Que eu certo me maravilho
possa mais o amor de filho
do que pode o da molher.
Finalmente hei-lha de dar
que a ambos conheço o centro.
Quero-o ir levantar
e iremos para dentro
neste caso praticar.
Diz contra o Príncipe:
Levantai-vos filho di
o melhor que vós puderdes
e vinde-vos para aqui
porque enfim o que quiserdes
tudo havereis de mi.
Pajem: Ah senhores oulá ou.
Porteiro: Viestes em conjunção
a melhor que pode ser.
Haveis aqui de fazer
a trosquia a um rifão.
Pajem: Deixai-me, senhor, dizer
haveis isto de acabar:
Coração i bugiar
no estéis preso en cadenas
que pois o amor vos deu penas
que vos lanceis a voar.
Porteiro: Por certo que bem coprou.
Pajem: Ora sabeis o que vai?
Antioco que casou
com a molher de seu pai
e o mesmo pai o ordenou.
Porteiro: Isso como?
Pajem: Não o sei
porque dizem que a amava
e que só por ela andava
para morrer e el Rei
deu a quem a desejava.
Porteiro: Se o casa por querer bem
com a moça a quem ama
direi que a mim me inflama
o amor mais que ninguém.
Pajem: Pois pedi-lhe a vossa dama.
Porteiro: Por são Gil, que ei-los cá vem.
Entra el Rei e Antioco com a Rainha pela mão, e diz el Rei:
Que mais há que esperar?
Olhai que estranheza, vai
o muito amor ordenar
ir-se o filho namorar
de ũa molher de seu pai.
Querer bem foi sua dor
negar-lha será crueldade
assi que já foi bondade
usar eu de tal amor
e de tal humanidade.
Ela deixou de reinar
como fazia primeiro
por se com ele casar
e por amor verdadeiro
tudo se pode deixar.
Eu que nela tinha posto
todo o bem de meu cuidado
deixei mais que ela há deixado
que mais se deixa no gosto
que no poderoso estado.
Mas já que tudo isto vemos
hajam festas de prazer
as que melhor possam ser
porque em tão grandes extremos
extremos se hão de fazer.
Hajam cantos para ouvir
jogos, prazeres sem fundo
porque se quereis sentir
deste modo entrou o mundo
e assi há de sair.
Aqui vem os músicos e cantam e depois de cantarem saem-se todas as figuras, e diz Martim Chinchorro:
Ora, senhor, tomemos também nosso pandeiro e vamos festejar os noivos ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta é a mor festa que pode ser. Mas espere vossa mercê. Ouviremos cantar, e na volta das figuras nos acolheremos. Moço, acende esse molho de cavacos, porque faz escuro, não vamos dar connosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as canastras.
Estácio da Fonseca: Não, senhor, mas o meu Pilarte irá com eles com um par de tições na mão e perdoem o mau agasalhado. Mas daqui em diante sirvam-se desta pousada e não tenham isto por palavras, porque essas e plumas, o vento as leva.
