Aquela que de amor descomedido

A D. António de Noronha, estando na Índia

Por o fermoso moço se perdeu
Que só por si de amores foi perdido,

Depois que a deusa em pedra a converteu,
De seu humano gesto verdadeiro
A última voz só lhe concedeu.

Assi meu mal do próprio ser primeiro
Outra cousa nenhũa me consente
Que este canto que escrevo derradeiro.

E se ũa pouca vida, estando ausente,
Me deixa Amor, é porque o pensamento
Sinta a perda do bem de estar presente.

Senhor, se vos espanta o sofrimento
Que tenho em tanto mal, pera escrevê-lo
Furto este breve espaço a meu tormento,

Porque quem tem poder pera sofrê-lo
Sem se acabar a vida co cuidado,
Também terá poder pera dizê-lo.

Nem eu escrevo um mal já acostumado;
Mas n'alma minha, triste e saudosa,
A saudade escreve e eu traslado.

Ando gastando a vida trabalhosa
E esparzindo a contínua soidade
Ao longo dũa praia soidosa.

Vejo do mar a instabilidade,
Como com seu ruído impetuoso
Retumba na maior concavidade.

De furibundas ondas poderoso,
Na terra, a seu pesar, está tomando
Lugar, em que se estenda, cavernoso.

Ela, como mais fraca, lhe está dando
As côncavas entranhas, onde esteja
Sempre com som profundo suspirando.

A todas estas cousas tenho enveja
Tamanha que não sei determinar-me,
Por mais determinado que me veja.

Se quero em tanto mal desesperar-me,
Não posso, porque Amor e Saudade
Nem licença me dão pera matar-me.

Às vezes cuido em mim se a novidade
E estranheza das cousas, coa mudança,
Poderiam mudar ũa vontade.

E com isto figuro na lembrança
A nova terra, o novo trato humano,
A estrangeira progénie, a estranha usança.

Subo-me ao monte que Hércules Tebano
Do altíssimo Calpe dividiu,
Dando caminho ao mar Mediterrano;

Dali estou tenteando adonde viu
O pomar das Hespéridas, matando
A serpe que a seu passo resistiu.

Estou-me em outra parte figurando
O poderoso Anteu que, derrubado,
Mais força se lhe vinha acrecentando;

Porém do hercúleo braço sojugado,
No ar deixando a vida, não podendo
Dos socorros da mãe ser ajudado.

Mas nem com isto, enfim, que estou dezendo,
Nem com as armas tão continuadas,
De amorosas lembranças me defendo.

Todas as cousas vejo demudadas,
Porque o tempo ligeiro não consente
Que estejam de firmeza acompanhadas.

Vi já que a Primavera, de contente,
Em variadas cores revestia
O monte, o campo, o vale, alegremente.

Vi já das altas aves a harmonia,
Que até duros penedos convidava
A algum suave modo de alegria.

Vi já que tudo, enfim, me contentava,
E que, de muito cheio de firmeza,
Um mal por mil prazeres não trocava.

Tal me tem a mudança e estranheza,
Que, se vou por os prados, a verdura
Parece que se seca, de tristeza.

Mas isto é já costume da ventura;
Porque aos olhos que vivem descontentes,
Descontente o prazer se lhes figura.

Não basta examinar-me a paciência
Com temores e falsas esperanças,
Sem que também me tente o mal de ausência?

Trazeis um brando espírito em mudanças,
Pera que nunca possa ser mudado
De lágrimas, suspiros e lembranças.

E se estiver ao mal acostumado,
Também no mal não consentis firmeza,
Pera que nunca viva descansado.

Já quieto me achava coa tristeza;
E ali não me faltava um brando engano,
Que tirasse desejos da fraqueza.

Mas, vendo-me enganado estar ufano,
Deu à roda a Fortuna, e deu comigo
Onde de novo choro o novo dano.

Já deve de bastar o que aqui digo,
Pera dar a entender o mais que calo
A quem já viu tão áspero perigo.

E se nos brandos peitos faz abalo
Um peito magoado e descontente,
Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;

Não quero mais senão que largamente,
Senhor, me mandeis novas dessa terra;
Que algũa delas me fará contente.

Porque, se o duro Fado me desterra
Tanto tempo do bem, que o fraco espírito
Desampare a prisão onde se encerra;

Ao som das negras águas de Cocito,
Ao pé dos carregados arvoredos,
Cantarei o que n´alma tenho escrito.

E, por entre estes hórridos penedos
A quem negou Natura o claro dia,
Entre tormentos ásperos e medos,

Com a trémula voz, cansada e fria,
Celebrarei o gesto claro e puro
Que nunca perdera da fantesia.

O Músico da Trácia, já seguro
De perder sua Eurídice, tangendo
Me ajudará, ferindo o ar escuro.

As namoradas sombras, revolvendo
Memórias do passado, me ouvirão;
E com seu choro o rio irá crescendo.

Em Salmoneu as penas faltarão,
E das filhas de Belo, juntamente
De lágrimas os vasos se encherão.

Que, se amor não se perde em vida ausente,
Menos se perderá por morte escura;
Porque, enfim, a alma vive eternamente,

E amor é afeito d´alma, e sempre dura.