Ao longo do sereno

Interlocutores: ALMENO e AGRÁRIO

Ao longo do sereno
Tejo, suave e brando,
Num vale de altas árvores sombrio,
Estava o triste Almeno
Suspiros espalhando
Ao vento, e doces lágrimas ao rio.
No derradeiro fio,
O tinha a esperança,
Que com doces enganos
Lhe sustentara a vida tantos anos
Nũa amorosa e branda confiança;
Que, quem tanto queria,
Parece que não erra, se confia.

A noute escura dava
Repouso aos cansados
Animais, esquecidos da verdura;
O vale triste estava
Cuns ramos carregados,
Que inda a noute faziam mais escura.
Of'recia a espessura
Um temeroso espanto;
As roucas rãs soavam
Num charco de água negra e ajudavam
Do pássaro nocturno o triste canto:
O Tejo, com som grave,
Corria mais medonho que suave.

Como toda a tristeza
No silêncio consiste,
Parecia que o vale estava mudo.
E com esta graveza
Estava tudo triste,
Porém o triste Almeno mais que tudo,
Tomando por escudo
De sua doce pena,
Pera poder sofrê-la,
Estar imaginando a causa dela;
Que em tanto mal é cura bem pequena.
Maior é o tormento
Que toma por alívio um pensamento.

Ao rio se queixava
Com lágrimas em fio,
Com que as ondas cresciam outro tanto.
Seu doce canto dava
Tristes águas ao rio
E o rio triste som ao doce canto.
Ao sonoroso pranto,
Que as águas refreava,
Responde o vale umbroso.
De tanta voz o acento temeroso
Na outra parte do rio retumbava,
Quando, da fantesia
O silêncio rompendo, assi dezia:

-Corre suave e brando
Com tuas claras águas,
Saídas de meus olhos, doce Tejo,
Fé de meus males dando,
Pera que minhas mágoas
Sejam castigo igual de meu desejo;
Que, pois em mim não vejo
Remédio, nem o espero;
E a morte se despreza
De me matar, deixando-me à crueza
Daquela por quem meu tormento quero,
Saiba o mundo meu dano,
Por que se desengane em meu engano.

Já que minha ventura,
Ou a causa que a ordena,
Quer que em pago da dor tome o sofrê-la;
Será mais certa cura
Pera tamanha pena
Desesperar de haver já cura nela.
Porque, se minha estrela
Causou tal esquivança,
Consinta meu cuidado
Que me farte de ser desesperado,
Pera desenganar minha esperança,
Pois somente nasci
- Pera viver na morte, e ela em mi.

Não cesse meu tormento
De fazer seu ofício,
pois aqui têm ũa alma ao jugo atada:
Nem falte o sofrimento
Porque parece vício
Pera tão doce mal faltar-me nada.
Ó Ninfa delicada,
Honra da Natureza!
Como pode isto ser,
Que de tão peregrino parecer
Pudesse proceder tanta crueza?
Não vem de nenhum jeito
De causa divinal contrário efeito.

Pois como pena tanta
É contra a causa dela?
Fora é do natural minha tristeza.
Mas a mi que me espanta?
Não basta, ó Ninfa bela,
Que podes perverter a Natureza?
Não é a gentileza
De teu gesto celeste
Fora do natural?
Não pode a Natureza fazer tal;
Tu mesma, ó bela Ninfa, te fizeste;
Porém, porque tomaste
Tão dura condição, se te formaste?

Por ti, o alegre prado
Me é penoso e duro;
Abrolhos me parecem suas flores.
Por ti, do manso gado,
Como de mi, não curo,
Por não fazer ofensa a teus amores.
Os jogos dos pastores,
As lutas entre a rama,
Nada me faz contente;
E sou já do que fui tão diferente,
Que, quando por meu nome alguém me chama,
Pasmo, porque conheço
Que inda comigo próprio me pareço.

O gado, que apacento,
São n'alma os meus cuidados;
As flores, que no campo sempre vejo,
São no meu pensamento
Teus olhos debuxados,
Com que estou enganando o meu desejo.
Do frio e doce Tejo
As águas se tornaram
Ardentes e salgadas,
Depois que minhas lágrimas cansadas
Com seu puro licor se misturaram,
Como quando mistura
Hípanis co Exampeu sua água pura.

Se aí no mundo houvesse
Ouvires-me algua hora,
Assentados na praia deste rio;
E de arte te dissesse
O mal que passo agora,
Que pudesse mover-te o peito frio!...
Oh! quanto desvario,
Que estou imaginando!
Já agora meu tormento
Não pode pedir mais ao pensamento
Que este fantesiar, donde penando
A vida me reserva.
Querer mais de meu mal será soberba.

Já a esmaltada Aurora
Descobre o negro manto
Da sombra, que as montanhas encobria.
Descansa, frauta, agora,
Pois meu escuro canto
Não merece que veja o claro dia.
Não canse a fantesia
De estar em si pintando
O gesto delicado,
Enquanto traz ao pasto o manso gado
Esse pastor, que lá só vem falando.
Calar-me-ei somente,
Que o meu mal nem ouvir se me consente.

AGRÁRIO
Fermosa manhã clara e deleitosa,
Que, como fresca rosa na verdura,
Te mostras bela e pura, marchetando
As Ninfas, espalhando teus cabelos
Nos verdes montes belos; tu só fazes,
Quando a sombra desfazes triste e escura,
Fermosa a espessura e a clara fonte,
Fermoso o alto monte e o rochedo,
Fermoso o arvoredo e deleitoso,
E enfim, tudo fermoso co teu rostro,
De ouro e rosas composto e claridade.
Trazes a saudade ao pensamento
Mostrando num momento o roxo dia,
Com a doce harmonia nos cantares
Dos pássaros a pares, que, voando,
Seu pasto andam buscando nos raminhos,
Pera os amados ninhos que mantêm.
Oh! grande e sumo bem da Natureza!
Estranha sotileza de pintora,
Que matiza, nũa hora, de mil cores
O céu, a terra, as flores, monte e prado!
Oh! tempo já passado! quão presente
Te vejo abertamente na vontade!
Quão grande saudade tenho agora
Do tempo que a pastora minha amava,
E de quanto prezava a minha dor!
Então tinha o amor maior poder,
Quando num só querer nos igualava;
Porque, quando um amava a quem queria,
Logo eco respondia de afeição
No brando coração da doce imiga.
Nesta amorosa liga concertavam
Os tempos, que passavam com prazeres.
Mostrava a flava Ceres polas eiras
Das brancas sementeiras ledo fruito,
Pagando seu tributo aos lavradores;
E enchia aos pastores todo o prado
Pales, do manso gado guardadora.
Iam Zéfiro e Flora passeando,
Os campos esmaltando de boninas;
Nas fontes cristalinas triste estava
Narciso, que inda olhava na água pura
Sua linda figura e delicada;
Mas Eco, namorada de tal gesto,
Com pranto manifesto, seu tormento
No derradeiro acento lamentava.
Ali também se achava o sangue tinto
Do purpúreo Jacinto, e o destroço,
De Adónis, belo moço, morte feia,
Da bela Citereia tão chorada;
-Toda a terra esmaltada destas rosas!
Iam ninfas fermosas polos prados;
E os faunos namorados após elas,
Mostrando-lhes capelas de mil cores,
Ordenadas das flores que colhiam;
As ninfas lhe fugiam, espantadas,
As fraldas levantadas, polos montes.
Via-se a água das fontes espalhar-se,
Vertumno transformar-se ali se via;
Pomona, que trazia os doces fruitos;
Ali pastores muitos, que tangiam
As gaitas que traziam, e, cantando,
Estavam enganando as suas penas,
Tomando das Sirenas o exercício.
Ouvia-se Salício lamentar-se,
Da mudança queixar-se crua e feia
Da dura Galateia tão fermosa;
E da morte envejosa Nemoroso
Ao monte cavernoso se querela,
Que a sua Elisa bela, em pouco espaço,
Cortou inda em agraço. Ah! dura sorte!
Oh! imatura Morte, que a ninguém,
De quantos vida têm jamais perdoas!
Mas tu, Tempo, que voas apressado,
Um deleitoso estado quão asinha
Nesta vida mesquinha transfiguras
Em mil desaventuras, e a lembrança
Nos deixas por herança do que levas!
Assi que, se nos cevas com prazeres,
É pera nos comeres no milhor.
Cada vez em pior te vás mudando;
Quanto vens inventando, que hoje aprovas,
Logo amanhã reprovas com instância!
Ó perversa inconstância e tão profana
De toda cousa humana inferior,
A quem o cego error sempre anda anexo!
Mas eu de que me queixo? ou eu que digo?
Vive o Tempo comigo, ou ele tem
Culpa no mal que vem da cega gente?
Porventura ele sente, ou ele entende
Aquilo que defende o ser Divino?
Ele usa de contino seu ofício,
Que já por exercício lhe é devido:
Dá-nos fruito, colhido na sazão
Do fermoso Verão; e no Inverno,
Com seu humor eterno congelado,
Do vapor levantado coa quentura
Do sol, a terra dura lhe dá alento,
Pera que, o mantimento produzindo,
Estê sempre cumprindo seu costume.
Assi que, não consume de si nada,
Nem muda da passada vida um dedo,
Antes sempre está quedo no devido,
Porque este é seu partido e sua usança;
E nele esta mudança é mais firmeza.
Mas quem a Lei despreza e pouco estima,
De Quem de lá de cima está movendo
O Céu sublime e horrendo, o Mundo puro,
Este muda o seguro e firme estado
Do Tempo, não mudado da Verdade.
Não foi naquela idade de ouro claro
O firme Tempo caro e excelente?
Vivia então a gente moderada;
Sem ser a terra arada, dava pão;
Sem ser cavado, o chão as fruitas dava;
Nem águas desejava, nem quentura:
Supria então Natura o necessário.
Pois quem foi tão contrário a esta vida?
- Saturno, que, perdida a luz serena,
Causou que, em dura pena desterrado,
Fosse do Céu lançado, onde vivia,
Porque os filhos comia, que gerava.
Por isso se mudava o Tempo igual
Em mais baixo metal; e assi descendo
Nos veio, enfim, trazendo a este estado...
Mas eu, desatinado, aonde vou?
Pera onde me levou a fantesia?
Que estou gastando o dia em vãs palavras?
Quero ora minhas cabras ir levando
Ao Tejo claro e brando; porque achar
No mundo que emendar, não é de agora;
Basta que a vida fora dele tenho;
Com meu gado me avenho, e estou contente.
Porém, se me não mente a vista, eu vejo
Nesta praia do Tejo estar deitado
Almeno, que, enlevado em pensamentos,
As horas e os momentos vai gastando.
Vou-me a ele chegando, só por ver
Se poderei fazer que o mal que sente,
Um pouco se lhe ausente da memória.

ALMENO
Oh! doce pensamento! oh! doce glória!
São estes porventura os olhos belos,
Que têm de meus sentidos a vitória?

São estas, Ninfa, as tranças dos cabelos,
Que fazem do seu preço o ouro alheio,
Como a mi de mi mesmo só com vê-los?

É esta a alva coluna, o lindo esteio,
Sustentador das obras mais que humanas
Que eu nestes braços tenho, e não o creio?

Ah! falso pensamento, que me enganas!
Fazes-me pôr a boca onde não devo,
Com palavras de doudo, ou quase insanas!

Como a alçar-te tão alto assi me atrevo?
Tais asas dou-tas eu, ou tu mas dás?
Levas-me tu a mi, ou eu te levo?

Não poderei eu ir onde tu vás?
Porém, pois ir não posso onde tu fores,
Quando fores, não tornes onde estás.

AGRÁRIO
Oh! que triste sucesso foi de amores,
O que a este pastor aconteceu,
Segundo ouvi contar a outros pastores!

Tanto enfim, por seu dano se perdeu,
Que o longo imaginar em seu tormento,
Em desatino Amor lho converteu.

Oh! forçoso vigor do pensamento,
Que pode noutra cousa estar mudando
A forma, a vida, o siso, o entendimento!

Está-se um triste amante transformando
Na vontade daquela que tanto ama,
De si a própria essência transportando.

E nenhũa outra cousa mais desama
Que a si, se vê que em si há algum sentido,
Que deste fogo insano não se inflama.

Almeno, que aqui está tão influído
No fantástico sonho que o cuidado
Lhe traz sempre ante os olhos esculpido,

Está-se-lhe pintando, de enlevado,
Que tem já da fantástica pastora
O peito diamantino mitigado.

Em este doce engano estava agora
Falando como em sonho; mas achando
Ser vento o que sonhava, grita e chora.

Destarte andavam sonhos enganando
O pastor sonolento, que a Diana
Andava antre as ovelhas celebrando;

Destarte a nuvem falsa, em forma humana,
O vão pai dos Centauros enganava
(Que Amor, quando contenta, sempre engana),

Como este, que consigo só falava,
Cuidando que falava, de enleado,
Com quem lhe o pensamento figurava.

Não pode quem quer muito ser culpado
Em nenhum erro, quando vem a ser
Este amor em doudice transformado.

Amor não será Amor, se não vier
com doudices, desonras, dissensões,
Pazes, guerras, prazer e desprazer,

Perigos, línguas más, murmurações,
Ciúmes, arruídos, competências,
Temores, nojos, mortes, perdições.

Estas são verdadeiras penitências
De quem põe o desejo onde não deve,
De quem engana alheias inocências.

Mas isto tem o amor, que não se escreve
Senão donde é ilícito e custoso;
E donde é mais o risco, mais se atreve.

Passava o tempo alegre e deleitoso
O Troiano pastor, enquanto andava
Sem ter alto desejo e perigoso.

Seus furiosos touros coroava,
E nos álamos altos escrevia
Teu nome, Enone, quando a ti só amava.

Os álamos cresciam, e crescia
O amor que ele tinha; sem perigo
E sem temor, contente te servia.

Mas depois que deixou entrar consigo
Ilícito desejo e pensamento,
De sua quietação tão inimigo;

A toda a pátria pôs em detrimento,
Com mortes de parentes e de irmãos,
Com cru incêndio e grande perdimento.

Nisto fenecem pensamentos vãos,
Tristes serviços mal galardoados,
Cuja glória se passa dantre as mãos.

Lágrimas e suspiros arrancados
Da alma, todos se pagam com enganos;
E oxalá foram muitos enganados!

Andam com seu tormento tão ufanos,
Que gastam na doçura dum cuidado
Após ũa esperança muitos anos.

E tal há tão perdido namorado,
Tão contente co pouco, que daria
Por um só volver de olhos todo o gado.

Em todo povoado e companhia,
Sendo ausentes de si, se vêem presentes
Com quem lhes pinta sempre a fantesia.

Cum certo não sei quê andam contentes,
E logo um nada os torna ao contrário,
De todo o ser humano diferentes.

Ó tirânico Amor, ó caso vário,
Que obrigas a um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário!

E que outrora nenhũa alegre esteja,
Senão quando do seu despojo amado
Sua inimiga estar triunfando veja!

Quero falar com este, que enredado
Nesta cegueira está sem nenhum tento.
- Acorda já, pastor, desacordado!

ALMENO
Oh! porque me tiraste um pensamento,
Que agora estava aos olhos debuxando,
De quem aos meus foi doce mantimento?

AGRÁRIO
Nesta imaginação estás gastando
O tempo e vida, Almeno? Perda grande!
Não vês quão mal os dias vás passando?

ALMENO
Fermosos olhos, ande a gente e ande,
Que nunca vos ireis desta alma minha,
Por mais que o Tempo corra, a Morte o mande.

AGRÁRIO
Quem poderá cuidar que tão asinha
Se perca o curso assi do siso humano,
Que corre por direita e justa linha?

Que sejas tão perdido por teu dano,
Almeno meu, não é, por certo, aviso,
É só doudice grande, grande engano.

ALMENO
Ó Agrário meu, que vendo o doce riso,
E o rostro tão fermoso como esquivo,
O menos que perdi foi todo o siso.

E não entendo, dês que sou cativo,
Outra cousa de mi, senão que mouro;
Nem isto entendo bem, pois inda vivo.

À sombra deste umbroso e verde louro
Passo a vida, ora em lágrimas cansadas,
Ora em louvores dos cabelos de ouro.

Se perguntares porque são choradas,
Ou porque tanta pena me consume,
Revolvendo memórias magoadas;

Dês que perdi da vida o claro lume,
E perdi a esperança e a causa dela,
Não choro por rezão, mas por costume.

Jamais pude co fado ter cautela;
Nem houve nunca em mi contentamento,
Que não fosse trocado em dura estrela.

Que bem livre vivia e bem isento,
Sem que ao jugo me visse sometido
De nenhum amoroso pensamento!

Lembra-me, amigo Agrário, que o sentido
Tão fora de amor tinha, que me ria
De quem por ele via andar perdido.

De várias cores sempre me vestia;
De boninas a fronte coroava;
Nenhum pastor, cantando, me vencia.

A barba, então, nas faces me apontava;
Na luta, na carreira, em qualquer manha,
Sempre a palma antre todos alcançava.

Da minha idade tenra, em tudo estranha,
Vendo (como acontece) afeiçoadas
Muitas ninfas do rio e da montanha,

Com palavras mimosas e forjadas,
Da solta liberdade e livre peito,
As trazia contentes e enganadas.

Mas não querendo Amor que, deste jeito
Dos corações andasse triunfando
Em quem ele criou tão puro afeito;

Pouco a pouco me foi de mi levando,
Dissimuladamente, às mãos de quem
Toda esta injúria agora está vingando.

AGRÁRIO
Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem
O princípio e o fim, que Nemoroso
Contado tudo isto, e mais, me tem.

Mas, quero-te dezer: se este enganoso
Amor é tão usado a desconcertos,
Que nunca amando fez pastor ditoso,

Já que nele estes casos são tão certos,
Porque os estranhas tanto, que de mágoa
Te horam vales, montes e desertos?

Vejo-te estar gastando em viva frágua,
E juntamente em lágrimas, vencendo
A grã Sicília em fogo, o Nilo em água.

Vejo que as tuas cabras, não querendo
Gostar as verdes ervas, se emagrecem,
As tetas aos cabritos encolhendo.

Os campos, que co tempo reverdecem,
Os olhos alegrando descontentes,
Em te vendo, parece se entristecem.

De todos teus amigos e parentes,
Que lá da serra vêm por consolar-te,
Sentindo na alma a pena que tu sentes,

Se querem de teus males apartar-te.
Deixando a choça e gado vás fugindo,
Como cervo ferido, a outra parte.

Não vês que Amor, as vidas consumindo,
Vive só de vontades enlevadas
No falso parecer dum gesto lindo?

Nem as ervas das águas desejadas
Se fartam; nem de flores, as abelhas;
Nem este Amor, de lágrimas cansadas.

Quantas vezes, perdido antre as ovelhas,
Chorou Febo de Dafne as esquivanças,
Regando as flores brancas e vermelhas?

Quantas vezes as ásperas mudanças
O namorado Galo tem chorado
De quem o tinha envolto em esperanças?

Estava o triste amante recostado,
Chorando ao pé dum freixo o triste caso
Que o falso Amor lhe tinha destinado.

Por ele o sacro Pindo e o grão Parnaso,
Na fonte de Aganipe destilando,
Se faziam de lágrimas um vaso,

O intonso Apolo o vinha ali culpando,
A sobeja tristeza perigosa
Com ásperas palavras reprovando:

- Galo, porque endoudeces? que a fermosa
Ninfa que tanto amaste, descobrindo
Por falsa a fé que dava, e mentirosa;

Polas Alpinas neves vai seguindo
Outro bem, outro amor, outro desejo,
Como inimiga, enfim, de ti fugindo.

Mas o mísero amante, que o sobejo,
Mal empregado amor lhe defendia
Ter de tamanha fé vergonha ou pejo,

Da falsífica ninfa não sentia
Senão que o frio do gelado Reno
Os delicados pés lhe ofenderia.

Ora se tu vês claro, amigo Almeno,
Que de Amor os desastres são de sorte,
Que pera matar basta o mais pequeno,

Porque não pões um freio a mal tão forte,
Que em estado te põe, que sendo vivo,
Já não se entende em ti vida nem morte?

ALMENO
Agrário; se do gesto fugitivo,
Por caso de fortuna desastrado,
Algũa hora deixar de ser cativo;

Ou sendo pera as Ursas degradado,
Adonde Bóreas tem o Oceano
Cos frios hiperbóreos congelado;

Ou donde o filho de Climene insano,
Mudando a cor das gentes totalmente,
As terras apartou do trato humano;

Ou se, já por qualquer outro acidente,
Deixar este cuidado tão ditoso,
Por quem sou de ser triste tão contente;

Este rio, que passa deleitoso,
Tornando pera trás, irá negando
À Natureza o curso pressuroso.

As cabras por o mar irão buscando
Seu pasto, e andar-se-ão, pola espessura,
Das ervas os delfins apascentando.

Ora, se tu vês na alma quão segura
Deste amor tenho a fé, pera que insistes
Nesse conselho e prática tão dura?

Se de tua porfia não desistes,
Vai repastar teu gado a outra parte,
Que é dura a companhia pera os tristes.

Ũa só cousa quero encomendar-te,
Pera repouso algum de meu engano,
Antes que o tempo, enfim, de mi te aparte:

Que se esta fera que anda em traje humano
Pola montanha vires ir vagando,
De meu despojo rica e de meu dano,

Com os vivos espritos inflamando
O ar, o monte e a serra, que consigo
Continuamente leva namorando;

Se queres contentar-me, como amigo,
Passando, lhe dirás: - Gentil pastora,
Não há no mundo vício sem castigo.

Tornada em puro mármore não fora
A fera Anaxarete, se amoroso
Mostrara o rosto angélico algũa hora.

Foi bem justo o castigo rigoroso;
Porém, quem te ama, Ninfa, não queria
Nódoa tão feia em gesto tão fermoso.

AGRÁRIO
Tudo farei, Almeno, e mais faria
Por algum dia ver-te descansado,
Se se acabam trabalhos algum dia.

Mas bem vês como Febo, já empinado,
Me manda que da calma iníqua e crua
Recolha em algum vale o manso gado.

Tu nessa fantesia falsa e nua,
Pera engano maior de teu perigo,
Não queres companhia mais que a sua.

Vou-me daqui, e fique Deus contigo;
E ficarás milhor acompanhado.

ALMENO
Ele contigo vá, como comigo
Me fica acompanhando o meu cuidado.