Antre rústicas serras e fragosas

Antre rústicas serras e fragosas,
Compostas de asperíssimos rochedos,
De salitradas lapas cavernosas;

Onde gretando os húmidos penedos
Orvalhados de neve branca e fria,
Brotando estão de si mil arvoredos;

Ũa floresta fez verde e sombria
A Natureza experta, que rodeia,
Como elevado muro, a serrania.

Neste fermoso sítio se recria
O lascivo Cupido entre as boninas,
Que sempre um brando zéfiro meneia.

Da cândida cecém, das clavelinas,
Da salva, manjerona e das mosquetas,
Das rubicundas flores hiacintinas,

Muitas capelas tece, que de setas
Lhe servem contra peitos de donzelas,
A quem de enveja traz sempre inquietas.

Não são dũa só cor as flores belas;
Que ũas esmalta verde, outras rosado,
Antre as azuis crescendo as amarelas.

Dos agrestes loureiros rodeado,
Faz o vale ũa sombra deleitosa,
Quando aparece o sol mais levantado.

E por cima da relva bem graciosa
As gotas de cristal quase imitando
Estão do aljôfar puro a luz fermosa.

As cristalinas fontes, que brotando
Por antre alvos seixinhos se derivam,
Das árvores os troncos vão banhando.

Antre as límpidas águas, que inda esquivam
O fermoso pastor que se perdeu,
Preso das falsas mostras que o cativam,

Cresce a por cuja causa se esqueceu
A linda Citereia de Vulcano,
Quando presa de Amor se lhe rendeu.

Na brancura do rosto soberano,
Inda as cruéis feridas aparecem
Do javali cerdoso e desumano.

As rosas que de sangue resplandecem,
As cândidas boninas marcheteadas,
Qual roxo esmalte à vista bem se of´recem.

Do matutino orvalho rociadas,
As flores rutilantes e cheirosas
Estão como por cima prateadas.

Os húmidos botões abrindo as rosas,
Que os agudos espinhos vão cercando,
No prado se vêem rindo, deliciosas.

A melífera abelha, sussurrando
Por cima das boninas que rodeia,
Está co som das águas concertando.

Do trémulo regato a branda areia
De jacintos se cobre e de vieiras,
Que encrespam da corrente a branca veia.

Os álamos se abraçam coas videiras
De sorte, que se enxerga escassamente
Se são os cachos seus, se das parreiras;

E pendendo por cima da corrente,
Outro fermoso bosque debuxando
Estão no fundo dela brandamente.

Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando
Do pérfido cunhado a crueldade,
Mágoas em melodias transformando.

A solitária rola com soidade
Desfaz o rouco peito, já cansada
De que não move a morte a piadade.

A doméstica Progne anda banhada
No sangue de seus filhos, em vingança
Da triste Filomela profanada.

De competir co merlo não descansa
O garrulo calhandro, que enrouquece
Por não perder calado a confiança.

Enquanto o pobre ninho ajunta e tece
O sonoro canário, modulando
Engana a grave pena que padece.

Alguns versos se escuta derramando
O vário pintassirgo, tão saudáveis,
Que produzem memórias de amor brando.

Por os direitos troncos há notáveis
Epigramas; alguns de antiga história,
Que contra o duro tempo são duráveis.

Uns de cruel tormento, outros de glória,
Conforme a liberdade do que escreve,
Estranhos casos mostram à memória.

O que neste lugar contente esteve,
Contente declarou seu pensamento,
E os prazeres também que nele teve;

Mas outros declarando o sentimento
Que dos olhos destila tristes águas,
Deixaram mil lembranças de tormento.

Abrasando-se alguns em vivas fráguas,
Escreveram do bosque em muitas partes
Gostos de Amor agora, agora mágoas.

Porque, cruel menino, o prémio partes
A quem serás tirano se lho negas,
E injusto e desigual, se lho repartes?

Porque enganas as almas que tão cegas
Arrastas após ti, de errar cativas?
Porque a cruéis rigores as entregas?

Pera que contra um peito assi te esquivas,
Que humilde se sujeita a teu cuidado,
Com enganos de sombras fugitivas?

Levas, como a menino, um pobre a nado,
Nũa aparência falsa embevecido,
Quando cos braços corta o mar inchado.

Querendo-se tornar, vê-se perdido;
Já grita que se afoga; e tu zombando,
Da praia antre os penedos escondido!

O triste, que conhece ir-se afogando,
No meio da arriscada zombaria
Por divino socorro está clamando.

Mas eu de que me espanto, se dezia
Um sábio, que de enganos se temesse
O que tomasse a um cego tal por guia?

Nunca nele a firmeza permanece;
Se nos dá gosto algum, muda-se logo;
Já chora, já se ri, já se enfurece.

Anda cos corações sempre num jogo;
Ũas vezes os faz de pedra fria,
Outras se faz de neve, outras de fogo.

Tornando ao bosque meu que descrevia,
Depois de ter contado da frescura
Que nele tão pomposa aparecia,

Referir quero agora ũa aventura
Que nele ao vão Narciso aconteceu,
Dina de se chorar com água pura.

Castigo foi que o moço mereceu
Por se mostrar esquivo com aquela,
Que em viva pedra Juno converteu.

Ardia em fogo d´alma a vã donzela,
Sofrendo um duro peito; que a Narciso,
Quando ella mais se abrasa, mais congela.

E quando a fraca Ninfa mais de siso
Mostrava um sinal certo de firmeza,
Então se provocava o moço a riso.

Já dũa profundíssima tristeza
A descora o rigor que a consumia,
Como diz disfavor mal com beleza!

O gelado pastor folgava e ria;
Mas vendo-a de seu gosto andar contente,
Por não a contentar se entristecia.

É tal o seu rigor, que não consente
Que seja o gosto próprio festejado;
Antes disso se mostra descontente.

Mas o cego Cupido, de afrontado,
Em vingança da fé que desprezou,
Fez que fosse de si mesmo enganado.

Casualmente um dia se chegou
A beber nũa fonte cristalina,
Que de si nova sede lhe causou.

Vendo a sua figura peregrina
Que a fonte dentro em si representava,
Se perdeu por imagem tão divina.

Como já, de enlevado, não cuidava
Nos enganos que a sombra lhe fazia,
Vendo o fermoso rostro, suspirava.

Por as avaras águas se metia;
E quanto mais molhava os ternos braços,
Então mais vivamente o fogo ardia.

Vendo-se assi prender em duros laços,
Ao sentimento obriga a paciência,
Dando, fora de si, ao vento abraços.

Embevecido todo na aparência,
Sem saber de cuidado o que sentia,
Não fez ao doce engano resistência.

Ao ver-se longe mais, mais perto via
O peregrino gesto; e se chegava,
Então pera mais longe lhe fugia.

Vendo, enfim, como em tudo o remediava,
Caiu no torpe engano que tivera,
A tempo que de si já preso estava.

A beleza que a tantas morte dera,
De si mesma se abrasa e se cativa.
Quão longe então de si ver-se quisera!

Ela se abranda própria; ela se esquiva;
E sendo ela somente a que se amava,
Ela se chama ingrata e fugitiva.

A fermosura, pois, que namorava,
Com tal dificuldade era seguida,
Que estando dentro em si, mui longe estava.

A solitária Ninfa, que escondida
Já nas cavernas côncavas se via,
Dos males que lhe ouviu foi comovida.

Das namoradas mágoas que dezia
O namorado moço, ela somente
Os últimos acentos repetia.

Ele vendo-se estar ali presente,
As cristalinas águas acusava
De que elas o faziam descontente.

Outras vezes à fonte, quando a olhava,
Já cego, e sem juízo, agradecia
A figura que dentro lhe mostrava.

Mas vendo que ela em nada se doía
De seu grave tormento, grita e chora.
Quanto erra quem de sombras se confia!

Já lhe pede que saia pera fora,
Ignorando que sempre fora esteve
A beleza que nele próprio mora.

Depois que longo espaço se deteve
Nestes queixumes seus tão lastimosos,
Que com tão longo ser, julgou por breve;

Cos olhos, belos si, mas lagrimosos,
Do vale se despede e da espessura,
Dando soluços da alma vagarosos.

Entregue na vontade da ventura,
Ou, por milhor dizer, de seus enganos,
Ao centro se arrojou da fonte pura.

Destarte feneceu em tenros anos
Narciso, dando exemplo à fermosura
De que tema, se é tal, também seus danos.

Sentimento mostrou da sorte dura
O namorado Júpiter, mudando
Ao moço em flor purpúrea, que inda dura.

Aquelas claras águas rodeando,
Onde por seus amores se perdeu,
Está depois da morte acompanhando.

Tanto no seu engano procedeu,
Que não sabe na morte inda apartar-se
Dos erros que na vida cometeu.

Bem pode o coração desenganar-se,
Que o fogo dum querer, n’alma inflamado,
Não costuma na morte resfriar-se.

Porque depois do corpo sepultado,
Prisão onde se encerra o fraco esprito,
Eternamente chora o seu cuidado.

E das escuras águas do Cocito
A rápida corrente refreando,
Celebra o lindo gesto n’alma escrito.

Lá se está cos favores recreando;
E se foi desprezado, lá padece,
As duras esquivanças lamentando.

Nem dos avaros olhos lá se esquece,
Que de fermoso verde a terra esmaltam,
Por não ver os do triste que endoudece.

Assi que os disfavores nunca faltam,
Até depois da morte perseguindo
Um triste coração que desbaratam.

Triste de quem em vão lhe vai fugindo!