Amor que viu minha dor
Carta a uma Senhora
Amor que viu minha dor
Ser maior que a paciência,
Prometeu-me, por favor,
Ũa carta de aderência
Pera vosso disfavor.
Eu que ainda não sabia
Quanto tinha de divino,
Julgava por desatino
Que carta de tal valia,
Notasse um cego minino.
Ele vendo-me ficar
Comigo quase suspenso,
Por mais me desenganar
Começou-me de notar
Na memória por extenso.
E diz, por ver se o nego,
Via boa se assim for;
E eu tornei-lhe por louvor:
Os conceitos são de cego,
E as palavras são de amor.
Logo escrever me mandou,
E não sendo a pena boa,
Pera as asas se virou
E ũa grande arrancou,
Daquelas com que mais voa.
E diz-me: - toma esta pena,
Que por minha a todos ganha,
Que parece cousa estranha
Que baste cousa pequena
A contar cousa tamanha.
E por ser mais igual
A matéria ao pensamento
Tudo é de um natural;
Molha a pena de teu mal
Na tinta do meu tormento.
O pensamento ligeiro,
Como portador tão fiel,
Sendo em tudo verdadeiro,
Te dê agora o papel,
Te sirva de mensageiro.
E eu, aparelhado assi,
Como amor me aparelhou,
Dês que nada me falece;
Desta maneira escrevi
O que o moço cego notou:
- Senhora, que não quereis,
Depois que tudo quisestes
E a morte me trazeis,
Negando-me o que podeis,
Sabendo quanto pudestes.
Esperai, estai atento,
Que pra contar minha dor
Me dá a tinta o tormento,
A pna me dá o amor,
O papel o pensamento.
Demócrito tirai
A vista tanto estimada,
Que sem ela procurai
Furtar o corpo à cilada,
Que do desejo esperai.
Se primeiro que vos vira,
Minha dor adivinhara,
Meus, certo, olhos tirara
Que inda que pena sentira,
Menos pena lhe ficara.
Mas ai, Senhora, que nisto,
Não acerto, nem pode ser,
Porque pera meu querer
Antes cego por ter-vos visto,
Que cego por vos não ver.
Quanto mais que os cegos tais,
Se ante vós estivessem,
Como os que vos vêem cegais;
Os cegos vista tivessem
Pera nunca verem mais.
Porque, depois que vos vi,
Quando vós ver me quisestes;
Nunca mais me vi a mim,
Nem vi quando me perdestes,
Sentindo que me perdi.
Tanto enlevei o cuidado
Na luz com que me cegastes,
Que de cego e enlevado
Não vi quando me roubastes,
Mas vi que fora roubado.
O pensamento por quanto
Vos quis ter por sua estrela,
Como quem mais se acautela
Se descuidou d'alma tanto,
Por vos dar cuidado dela.
Mas a alma que na glória
Se viu de vossa prisão,
Deu recado ao coração,
Que rendido, ou com vitória,
Se rendesse em vossa mão.
Os olhos que cada dia
Os vossos lhe eram defesos,
Como que mais não queria
Iam sempre ver os presos,
[Só] por ver a quem prendia.
Gozavam da vista pura,
Viam ũa alma no Céu;
Oh que Céu! mas pouco dura
A glória, pois a tolheu,
Ou vós, ou minha ventura.
Ventura, não, que é cousa dura
Negar ela o que podeis;
Vós sim, pois que bem sabeis
Quão pouco pode a ventura
Onde vós tanto podeis.
E se, Senhora, quereis
Ser remédio do que espero,
Sou contente que me deis
Não mais que quanto podeis,
Pra ficar com quanto quero.
Se de bem tão sublimado,
Por indino me tiverdes,
Tende convosco assentado
Que pois tenho meu cuidado,
Que terei quanto me derdes.
E pois que o pensamento
Foi capaz de imaginar-vos
Pela glória do tormento,
Quis o merecer comprar-vos
Com vosso merecimento.
Assim que de merecer
Não me falta cantidade
Nem me falta o poder ser;
Mas pera tudo poder,
Falta-me vossa vontade.
E pois que podeis por vós,
O que não posso por mim,
Porque não quereis o fim,
Sem desfazeres em vós,
Vir a fazer tanto em mim.
E pois o tempo vos dá
Licença porque me deis,
Não negueis o que podeis,
Que depois o negará,
E vós mo concedereis.
E pois tanto bem me destes,
Senhora, não mo tireis;
Porque mais pena tereis
Em saber que já pudestes,
Que ver que já não podeis.
Enfim porque nunca seja
Chegado a tão dura sorte,
Ou consenti que vos veja,
Ou não me negueis a morte,
Que a vida sem vós deseja.
