Afuera, consejos vanos,
MOTE
Afuera, consejos vanos,
Que despertáis mi dolor;
No me toquen vuestras manos,
Que los consejos de amor,
Los que matan, son los sanos.
GLOSA
Foi-me a fortuna entregar
A ũa dama interesseira,
Que, em vez de prémio me dar
Por ũa fé verdadeira,
Procura de me roubar.
Diz que rompe qualquer muro
E escusa cem mil danos;
Eu, que temo seus enganos,
Quanto de fero seguro:
- Afuera, consejos vanos!
Grandemente me persegue
E me pede que lhe dê;
Não me val' rezão que alegue
Nem maneira com que chegue
A achar valor nesta fé.
E porque ela me entendesse,
Lhe disse: - Meu lindo amor,
Por vosso disfavor
Não me pidais interesse,
Que despertáis mi dolor.
Em mostras dessa fé pura
Vos farei, se vós gostais,
Lindas trovas que leais,
De vossa linda figura,
Com que tanto me matais.
Mas se pretendeis roubar-me
Com afagos, com enganos,
E depois desenganar-me,
Pois não é cousa que me arme,
No me toquen vuestras manos.
Se dezeis que quem quer bem
Há-de gastar sem ter freio,
Eu, Senhora, bem o creio;
Mas praticai-o com quem
Tiver o seu cofre cheio.
Se me dezeis que se soa
Que quem dá tem mais favor,
Deixai-me antes minha dor,
Pois nada mais me magoa
Que los consejos de amor.
Antre as regras dos amores,
Tomai esta singular,
Que vos há-de aproveitar:
Chamai-nos enganadores
E deixai-vos enganar.
Lograi-vos de vossa idade
No florido desses anos,
Porque, de nossos enganos,
Se me credes em verdade,
Los que matan son los sanos.
