A vida já passei assaz contente
XVI
A vida já passei assaz contente,
Livre tinha a vontade e o pensamento,
Sem receios de Amor, nem da Ventura:
Mas isto foi um bem dum só momento;
E à minha custa vejo claramente,
Que a vida não dá algum de muita dura.
No tempo em qu'eu vivia mais segura
De Amor e seu cuidado,
Por me ver num estado
Em qu'eu cuidei que Amor não tinha parte;
Não sinto por qual arte
Me vejo entregue a ele de tal sorte,
Que enquanto tarda a morte,
A esperança do bem tenho perdida.
Ai quão devagar passa a triste vida!
Quantas vezes eu triste aqui ouvia
O meu Felício e outros mil pastores,
Queixar-se em vão de minha crueldade!
E mais surda então eu a seus clamores,
Que áspide surda, ou surda penedia,
Julgava os seus amores por vaidade.
Agora em pago disto a liberdade,
A vontade e o desejo
De todo entregue vejo
A quem, inda que brade, não responde;
Pois vejo que se esconde
Já debaixo da terra este qu'eu chamo,
Que é aquele a quem amo,
Aquele a quem agora estou rendida.
Ai! quão devagar passa a triste vida!
Que glória, Amor cruel, com meu tormento,
Que louvor a teu nome acrescentaste?
Ou que te constrangeu a tal crueza,
Que com tal pressa esta alma sujeitaste,
A um mal, onde não basta o sofrimento?
Mas se, Amor, és cruel de natureza,
Bastava usar comigo da aspereza
Que usas com outra gente;
Mas tu como somente
De ver-me estar morrendo te contentas,
Quanto mais me atormentas,
Então desejas mais de atormentar-me;
E não queres matar-me
Porque este mal de mim se não despida.
Ai! quão devagar passa a triste vida!
Onde cousa acharei que alegre veja?
A quem chamarei já que me responda?
Quem me dará remédio à dor presente?
Não há bem, que de mim já não se esconda;
Nem algum verei já, que a mim o seja,
Porque está quem o foi da vida ausente.
Eu algũa não vi tão descontente,
Que Amor tão mal tratasse,
Que inda não esperasse
A seus males remédio achar vivendo;
Eu só vivo sofrendo
Um mal tão grave e tão desesperado,
Que tanto é mais pesado,
Quanto a vida com ele é mais comprida.
Ai! quão devagar passa a triste vida!
Suaves águas, dura penedia,
Arvoredo sombrio, verde prado,
Donde eu já tive livre o pensamento;
Frescas flores; e vós, meu manso gado,
Que já me acompanhastes na alegria,
Não me deixeis agora no tormento.
Se do mal meu vos toca sentimento,
Dai-me pra ele ajuda,
Qu'eu tenho a língua muda,
O alento me vai já desamparando.
Mas quando (ai triste!) quando
Dum dia ũa hora me virá contente,
Qu'eu te veja presente,
Pastor meu, e contigo est'alma unida?
Ai! quão devagar passa a triste vida!
Mas não sei se é sobrado atrevimento
Querer-se est'alma minha unir contigo,
Pois dela foste já tão desprezado.
Amor me livrará deste perigo;
Que, depois que lá vires meu tormento,
Creio que te haverás por bem vingado.
E s'inda em ti durar o amor passado,
E aquela fé tão pura,
Eu estou bem segura
Que hás lá de receber-me brandamente.
Aprenda em mim a gente
Quão cara ũa isenção com Amor custa,
A pena dá bem justa
A ũa alma que lhe é pouco agradecida.
Ai! quão devagar passa a triste vida!
