A peregrinação de um pensamento
A peregrinação de um pensamento,
Que dos males fez hábito e costume,
Tanto da triste vida me consume,
Quanto cresce na causa do tormento.
Leva a dor de vencida ao sofrimento;
Mas a alma está, de entregue, tão sem lume,
Que enlevada no bem que haver presume,
Não faz caso do mal que está de assento.
De longe receei (se me valera)
O perigo que tanto à porta vejo,
Quando não acho em mim cousa segura.
Mas já conheco (oh! nunca o conhecera!)
Que entendimentos presos do desejo
Não têm remédio mais que o da ventura.
