A morte, pois que sou vosso
A uma Dama que se chamava Ana
MOTE
A morte, pois que sou vosso,
Não a quero; mas, se vem,
A-de ser lodo meu bem.
GLOSA
Amor, que em meu pensamento
Com tanta fé se fundou,
Me tem dado um regimento
Que, quando vir meu tormento,
Me salve com cujo sou.
E com esta defensão
Com que tudo vencer posso,
Digo a causa ao coração:
Não tem em mim jurdição
A morte, pois que sou vosso.
Por exp'rimentar um dia
Amor se me achava forte
Nesta fé, como dezia,
Me convidou com a morte,
Só por ver se a temeria.
E como ela seja a cousa
Onde está todo meu bem,
Respondi-lhe, como quem
Quer dezer mais e não ousa:
Não a quero, mas se vem...
Não disse mais, porque então
Entendeu quanto me toca;
E se tinha dito o não,
Muitas vezes diz a boca
O que nega o coração.
Toda a cousa defendida
Em mais estima se tem.
Por isso é cousa sabida
Que perder por vós a vida
Há-de ser todo meu bem.
