A D. Constantino, Vizo-Rei na Índia
A D. Constantino, Vizo-Rei na Índia
Como nos vossos ombros tão constantes,
Príncipe ilustre e raro sustenteis,
Tantos negócios árduos e importantes,
Dinos do largo império que regeis;
Como sempre nas armas rutilantes
Vestido, o mar e a terra segureis
Do pirata insolente e do tirano
Jugo do potentíssimo Otomano;
E como com virtude necessária,
Mal entendida do juízo alheio,
À desordem do vulgo temerária
Na santa paz ponhais o duro freio;
Se com minha escritura longa e vária
Vos ocupasse o tempo, certo creio
Que com vagante e ociosa fantesia
Contra o comum proveito pecaria.
E não menos seria reputado
Por doce adulador, sagaz e agudo,
Que contra meu tão baixo e triste estado
Busco favor em vós, que podeis tudo;
Se, contra a opinião do vulgo errado,
Vos celebrasse em verso humilde e rudo,
Dirão, que com lisonja ajuda peço
Contra a miséria injusta que padeço.
Porém, porque a verdade pode tanto
No livre arbítrio (como disse bem
Ao rei Dário o moço sábio e santo,
Que foi reedificar Hierusalém),
Esta me obriga a que em humilde canto,
Contra a tenção que a plebe ignara tem,
Vos faça claro a quem vos não alcanca;
E não de prémio algum vil esperança.
Rómulo, Baco e outros que alcançaram
Nomes de semideuses soberanos,
Enquanto por o mundo exercitaram
Altos feitos e quase mais que humanos,
Com justíssima causa se queixaram
Que não lhes responderam os mundanos
Favores do rumor, justos e iguais
A seus merecimentos imortais.
Aquele que nos braços poderosos
Tirou a vida ao tingitano Anteu,
E a quem os seus trabalhos tão famosos
Fizeram cidadão do claro Céu,
Achou que a má tenção dos envejosos
Não se doma senão depois que o véu
Se rompe corporal; porque na vida
Ninguém alcança a glória merecida.
Pois, logo, se barões tão excelentes
Foram do baixo vulgo molestados,
O vitupério vil das rudes gentes
É louvor dos reais e sublimados.
Quem no lume dos vossos ascendentes
Poderá pôr os olhos, que abalados
Lhe não fiquem da luz, vendo os maiores
Vossos passados, Reis e Emperadores?
Quem verá aquele pai da pátria sua,
Açoute do soberbo Castelhano,
Que o duro jugo, só, coa espada nua,
Removeu do pescoço lusitano,
Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua
Memória causará, se não me engano,
Que qualquer teu menor tanto se estime,
Que nunca possa ser senão sublime!
Nisto não falo mais, porque conheço
Que da matéria se me abaixa o engenho.
Mas, pois a dezer tudo me ofereço,
E dias há que no desejo o tenho.
Sendo vós de tão alto e ilustre preço,
A vida fostes pôr num fraco lenho,
Por largo mar e undosa tempestade,
Só por servir à Régia Majestade.
E depois de tomar a rédea dura
Na mão, do povo indómito que estava
Costumado a larguezas e à soltura
Do pesado governo que acabava;
Quem não terá por santa e justa cura,
Qual do vosso conceito se esperava,
A tão desenfreada infirmidade
Aplicar-lhe contrária qualidade?
Não é muito, Senhor, se o moderado
Governo se blasfema e se desama;
Porque o povo à largueza costumado,
À lei serena e justa dura chama.
Pois o zelo, em virtude só fundado,
De salvar almas da tartárea flama
Coa água salutífera de Cristo,
Poderá porventura ser malquisto?,
Quem quisesse negar tão grã verdade
Qual é o seu efeito santo e pio,
Negue também ao Sol a claridade,
E certifique mais que o fogo é frio.
Se o sucesso é contrário da vontade;
Nas obras, que são boas, e há desvio,
Está nas mãos dos homens cometê-las,
E nas de Deus está o sucesso delas.
Sei eu, e sabem todos que os futuros
Verão por vós o Estado acrecentado;
Serão memórias vossas os fortes muros
Do cambaico Damão bem sustentado:
Da ruína mortal serão seguros,
Tendo todo o alicerce seu fundado
Sobre órfãs emparadas com maridos,
E pagos os serviços bem devidos.
Quamanha infâmia ao príncipe é perder-se
Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,
Tanto por glória grande deve ter-se
Se acrecentado e próspero o deixou.
Nunca cosentiu Roma enobrecer-se
Com triunfos alguém, se não ganhou
Província com que o Império se aumentasse,
Por maiores vitórias que alcançasse.
Pode tomar o vosso nome dino
Damão, por honra sua clara e pura,
Como já do primeiro Constantino
Tomou Bizâncio aquele que inda dura
E tu, Rei que no reino neptunino,
Lá na seio gangético, a Natura
Te aposentou, de ser tão inimigo
Deste Estado, não ficas sem castigo.
Bem viste contra ti nadantes aves
Cortar a espumosa água, navegando;
Ouviste o som das tubas, não suaves,
Mas com temor horrífero soando;
Sentiste os golpes ásperos e bravos
Do lusitano braço nunca brando,
Não sofreste o grão brado penetrante,
Que os trovões imitava do Tonante.
Mas antes, dando as costas e a vitória
À bragancês ventura, não corrido,
Deste bem a entender quão grande glória
É de tal vencedor o ser vencido.
Quem fez obras tão dinas de memória,
Sempre será famoso e conhecido
Onde os altos juízos o estimarem,
Que estes sós têm poder de fama darem.
Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,
Tão ingrato a quem tanto faz por ele;
Mas sabei que é sinal de serdes claro
O ser agora tão malquisto dele.
Temístocles, da pátria sua amparo,
O forte e liberal Címon, e aquele
Que leis ao povo deu de Esparta antigo,
Testemunhas serão de quanto digo.
Pois ao justo Aristides um robusto,
Votando no ostracismo costumado,
Lhe disse claro assi: Porque era justo,
Desejava que fosse desterrado.
Paquitas, por fugir do povo injusto,
Calunioso, dando no Senado
Conta de Lesbos, que ele já mandara,
Se tirou co seu ferro a vida cara.
Demóstenes, lançado das tormentas
Populares: Ó Palas! foi dezendo,
Que de três monstros grandes te contentas,
Do drago e mocho, e do vil povo horrendo!
Que glórias imortais houve, que isentas
Do veneno vulgar fossem vivendo?
Pois mil exemplos deixo de Romanos,
E vós também sois um dos Lusitanos.
