Biografia

Luís Vaz de Camões (1517?? 1524? 1525?– 1580) é um poeta épico e lírico, considerado o maior poeta de língua portuguesa de todos os tempos, especialmente reconhecido por ser o autor d’ Os Lusíadas, o poema épico sobre as descobertas portuguesas. A importância da sua obra só foi reconhecida após a sua morte, tendo este vivido uma vida repleta de dificuldades.

Ilustração de Luís de Camões - Camoesdigital.pt

Vida

São escassos os dados biográficos sobre a vida de Luís de Camões, dando margem à abundância de episódios míticos, mas as informações que vieram a público quase três décadas depois da sua morte (numa nota biográfica de Pedro de Mariz à edição da epopeia, acompanhada por comentários de Manuel Correia, suposto amigo do poeta), dão como provável o seu nascimento em Lisboa em 1524 ou 1525. Teses recentes apontam com mais convicção para o ano 1524, associando a interpretação de um poema seu, “O dia em que eu nasci morra e pereça”, a estudos astronómicos que confirmam a ocorrência de um eclipse solar no dia 23 de janeiro de 1525, supostamente o dia do primeiro aniversário de Camões.

Filho de Simão Vaz e de Ana de Sá, Luís de Camões foi membro de uma aristocracia empobrecida. Supõe-se que tenha estudado em Coimbra, junto do tio D. Bento, prior do Mosteiro de Santa Cruz e reitor da Universidade, que o terá orientado nos caminhos do saber, ainda que não existam registos oficiais da sua passagem pela universidade.

A sua condição social e financeira terá ditado como modo de vida a procura da sorte nos convívios aristocratas da corte, mas também no mundo das armas. Fidalgo pobre, mas bem relacionado, pertencente a uma aristocracia com poucos recursos, é reconhecido pelo sucesso entre as damas e como jovem culto, sedutor, aventureiro e tumultuoso.

Terá estado em Ceuta onde, num confronto militar com mouros, perdeu um olho, episódio determinante, que marca não só a sua vida como a sua imagem, facto seguramente ocorrido antes da sua ida para a Índia.

Em Lisboa, é conhecido pela sua vida boémia e pouco regrada, chegando mesmo a ser preso devido a confrontos com um funcionário do paço. Perdoado por D. João III em 1553, parte para o Oriente, onde cumpre 3 anos de serviço militar, mas permanece por quase duas décadas, cerca de 17 anos.

Apesar de pouco ou nada estar documentado, crê-se que tenha participado em ações militares, no período em que escrevia Os Lusíadas, que salva quando é vítima de um naufrágio ao largo do rio Mecon (como o próprio declara na obra – X,128), num episódio que, provavelmente, tem mais de mítico do que de real. Segundo consta deste mito trágico da sua biografia, aqui terá perdido a sua amada chinesa Dinamene, a quem dedica mais tarde alguma da sua lírica.

É possível que, findos os três anos de serviço militar, provavelmente em 1556, Camões tenha sido dispensado e, posteriormente, tenha aceitado o desempenho de funções públicas. O único cargo de que há registos é o de Provedor dos Defuntos, atribuído em 1563 pelo vice-rei de Macau, Francisco Coutinho. Trata-se de um cargo curioso por lhe permitir a continuidade do ofício lírico de conferir imortalidade aos que deram a vida pela pátria. Nos restantes períodos temporais, crê-se que tenha vivido desempregado e ao sabor da boa vontade da aristocracia lusa em paragens orientais.

Em cerca de 1568, provavelmente em busca de melhor sorte, foi para Moçambique, onde Diogo do Couto o encontra mais tarde, vivendo na miséria e preso por dívidas. O poeta vive amargurado pelas injustiças de que se considera alvo, ficando por esclarecer se é vítima da má-fé dos seus conterrâneos ou da sua própria atitude arrogante e provocatória, típica de quem é incompreendido. Passava então o tempo a aperfeiçoar Os Lusíadas e trabalhava numa obra intitulada Parnaso de Luís de Camões, que lhe foi roubada. Couto e os amigos do poeta, de escala em Moçambique, pagam-lhe as dívidas e a viagem, e com ele seguem de volta ao reino, chegando ao porto de Cascais, na Primavera de 1570.

À chegada, não reconhece o país, que se encontra mergulhado em instabilidade, intriga palaciana, governação insensata, num ambiente politicamente tenso, confuso e incerto, para o qual também contribuía a presença da castradora Inquisição. Se partiu por não conseguir enquadrar-se nas regras e costumes do Portugal da década de 50, quando regressa, passadas quase duas décadas, ainda mais se frustra com o que observa.

É neste contexto que dá os acabamentos finais à sua grande epopeia, escrevendo cerca de 70 anos depois da viagem de Vasco da Gama e transparecendo uma visão mais decadente. Dedica a obra ao rei vigente, D. Sebastião, a quem tece rasgados elogios, sem, contudo, deixar de tecer duras críticas e aproveitar a oportunidade para transmitir sábios conselhos, vindos, na primeira pessoa, de um homem que traz os ensinamentos de quem experienciou o império e antevê a sua queda.

A 24 de setembro de 1571, Camões obteve de D. Sebastião o alvará que lhe permite imprimir Os Lusíadas por um período de dez anos. Em 1572, sai a obra que o tornaria imortal, em Lisboa, na casa do impressor António Gonçalves.

Em 28 de julho do mesmo ano, D. Sebastião concede ao poeta uma tença anual de 15000 réis, a pagamento desde 12 de março (o equivalente a metade do salário de um artesão), pelos serviços que este lhe havia prestado na Índia, não sendo certo tratar-se de uma compensação pela publicação d’ Os Lusíadas. Esta tença foi paga irregularmente, mas sempre na sua totalidade, dela beneficiando, por ordem de Filipe II de Espanha, a mãe do poeta, que lhe sobreviveu. Consta que o rei castelhano, na sua primeira visita a Portugal, terá perguntado pelo poeta e lamentado a sua morte.

É graças a esta documentação que sabemos que a morte de Camões ocorreu em Lisboa, a 10 de Junho de 1580, ano da perda da independência nacional para o domínio filipino, decadência por si augurada, contexto que o levou a proferir a célebre frase “Morro com a pátria!”. O seu patriotismo exacerbado e a leitura nacionalista que da sua epopeia pode ser feita levaram ao decretar de feriado nacional na data da sua morte pelo Estado Novo: 10 de junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.

Se partiu por não conseguir enquadrar-se nas regras e costumes do Portugal da década de 50, quando regressa, passadas quase duas décadas, ainda mais se frustra com o que observa. É neste contexto que dá os acabamentos finais à sua grande epopeia…”

Obra

Em vida, além d’ Os Lusíadas, Camões publicou apenas três composições. Uma ode laudatória, escrita na Índia e dedicada a Garcia de Orta (“Aquele único exemplo”), que aparece nos Colóquios dos Simples e Drogas (Goa, 1563); a elegia «Depois que Magalhães teve tecida»; e o soneto «Vós ninfas da gangética espessura», que saíram na História da Província de Santa Cruz (Lisboa, 1576), de Pêro de Magalhães de Gân-davo.

O Parnaso de Luís de Camões, em que trabalhava, foi-lhe roubado e as edições que dele conhecemos são todas póstumas, recaindo nelas as espectáveis dúvidas de autenticidade.

Das edições póstumas, o teatro de Camões foi a primeira obra a aparecer, incluído no volume Primeira Parte dos Autos e Comédias Portuguesas (Lisboa, 1587). Os dois autos, Anfitriões e Filodemo, figuram na coletânea como sendo da autoria do poeta, nada se sabendo, porém, do texto que lhes serviu de base. Sabe-se que a censura inquisitorial exerceu o seu crivo, porque no Cancioneiro de Luís Franco Correia, 1557-1589, em manuscrito, se encontra uma versão do Auto de Filodemo muito mais ousada e crítica do que a do texto publicado. Este auto terá sido levado à cena em Goa, por altura dos festejos de investidura de Francisco Barreto como governador, cujas funções desempenhou entre 1555 e 1558.

As Rimas (Lisboa, 1595) são a primeira edição da lírica, feita a partir de cancioneiros manuscritos, que, apesar do cuidado de Fernão Rodrigues Lobo Soropita, seu organizador anónimo, apresenta falhas e lacunas.

A epopeia camoniana, baseada em particular na viagem de Vasco da Gama à Índia (1497-1498), é um poema de grande complexidade estética, em que contempla não só a heroicidade do povo lusíada, como a fragilidade da vida humana, com todos os seus intemporais vícios, transparecendo um humanismo e uma universalidade muito à frente do seu tempo, que ecoa também na subjetividade da sua obra lírica.

“Sabe-se que a censura inquisitorial exerceu o seu crivo, porque no Cancioneiro de Luís Franco Correia, 1557-1589, em manuscrito, se encontra uma versão do Auto de Filodemo muito mais ousada e crítica do que a do texto publicado. “

O legado do génio

Apesar de apelidado de “Príncipe dos Poetas” e do seu talento ser frequentemente qualificado como “fina flor”, todo o reconhecimento que lhe tem sido dado fica aquém do que efetivamente lhe é devido.

Lido por obrigação nos programas escolares, sem que dele se consiga apreciar verdadeiramente o prazer estético; usado por nacionalismos balofos, como símbolo de identidade nacional, ao serviço da propaganda do Estado Novo, abafando a sua essência humanista; dá nome a ruas e instituições, figura em estátuas aqui e ali; e até junta o seu nome ao feriado nacional de exaltação do país… mas poucos verdadeiramente o celebram conhecendo o alcance da sua mensagem.

Para além da mestria estética demonstrada na obra maior, deixou como sua grande herança a modernização da língua, a sua afirmação, colocando-a no topo do cânone dos géneros literários. A escrita de uma epopeia que dignificasse a nação e os seus feitos, conferindo-lhe e confirmando-lhe, através da literatura, legitimação e autonomia era naquela época um desígnio nacional, almejado por muitos, tentado por outros, mas apenas levado a cabo por Camões.

Não se limitou a alcançar esse desígnio: compôs uma obra-prima ao nível da literatura mundial, um projeto colossal… a bíblia da pátria.

Se não existem Aquiles e Eneias sem Homero e Virgílio, também não existe Vasco da Gama e Descobrimentos Portugueses sem Camões, porque quem faz os heróis é quem sobre eles escreve. Os portugueses puseram em contacto povos dos vários cantos do mundo e Camões imortalizou esse feito, mapeando simultaneamente a essência humana e a condição de ser português. É a génese do mundo globalizado como o conhecemos hoje, um verdadeiro encontro de culturas a nível global, é certo que ao serviço de uma estratégia económica, que, apesar de tudo, não invalida o avanço civilizacional que aí teve origem.

A obra patenteia a sua genialidade pelo vasto conhecimento memorizado a que já não tinha acesso, longe da corte e dos colégios de Coimbra: História de Portugal, História Universal, Geografia, Ciência Naturais, Ética, Filosofia, Mitologia, Literaturas Clássica e Renascentista, sua contemporânea… revelando uma vasta erudição. Camões era o ideal do homem renascentista, homem de cultura, de ação e supremo artesão das palavras… e, já que poucos o reconheciam, o autoelogio aparece explicitado no final da epopeia:

“Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;”

“…dá nome a ruas e instituições, figura em estátuas aqui e ali; e até junta o seu nome ao feriado nacional de exaltação do país… mas poucos verdadeiramente o celebram conhecendo o alcance da sua mensagem.”

Outro aspeto surpreendente associado à obra é o facto de ter passado incólume ao filtro da censura inquisitorial, pelo recurso à mitologia pagã e, em particular, pelo episódio da Ilha dos Amores, uma recompensa seguramente demasiado pecaminosa e obscena para os critérios da época. Ainda assim, escreveu o censor: “Como isto é poesia e fingimento e o autor como poeta não pretenda mais do que ornar o estilo poético, não tivemos por inconveniente ir esta fábula dos deuses na obra e por isso me pareceu o livro digno de se imprimir e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas.”

Teses defendem que o motivo desta aprovação poderá estar ligado a alguma intriga política, que opunha os conselheiros mais influentes do rei (alvos de crítica nas reflexões do poeta ao longo da obra e em particular no final do canto X) aos mais altos representantes da igreja.

Se por um lado, houve alguma dificuldade na publicação da obra, noutras circunstâncias, parece que as portas se abriram mais facilmente. Disso também é exemplo o facto de apenas 8 anos depois a obra já estar traduzida no país vizinho, o que, para a época, representa pouco tempo. Atualmente, esta obra-prima é reconhecida e está traduzida em mais de vinte línguas, inclusive em mandarim, concani (de Goa) e esperanto (idioma universal criado artificialmente).

A sua originalidade passa ainda por algo não tão frequentemente evidenciado: a oposição entre a brutalidade e crueldade do mundo masculino, impregnado de violência, guerra e morte, e o mundo amoroso, pulsão de vida do universo feminino. Se no confronto direto, quem perde são as mulheres (Inês de Castro é brutalmente assassinada pelos algozes do rei), o poeta valoriza a diversidade amorosa, apresenta o amor como celebração de multiculturalidade precoce e como solução para todos os problemas (o Adamastor e a tempestade foram ultrapassados graças ao amor: memória de desilusão amorosa, no primeiro caso, sedução e promessa de amores futuros, no segundo). Note-se ainda que a deusa escolhida para protetora dos portugueses é Vénus, deusa romana do amor.

Camões apresenta, tanto na epopeia como na lírica, a alegoria do amor como motor do conhecimento, da ação e do destino dos homens na terra, como única força capaz de devolver ao mundo a harmonia perdida, representando o mais alto grau de perfeição a que a condição humana pode aspirar.

Prova desta visão é a subversão dos cânones de beleza feminina. Camões tanto elogia, em soneto, a mulher europeia, petrarquista; como, em redondilha maior, a singela Lianor que “descalça vai para a fonte”; tanto admira a mulher oriental, amando a sua Dinamene, como se deixa encantar pela beleza da mulher africana, ficando escravo da sua Bárbora. Existem ainda teses que equacionam o elogio da beleza masculina. É a apologia do amor, assumindo várias formas, e da aceitação do outro como meio de nos conhecermos e completarmos.

Esta atitude é assumida numa poesia nostálgica, intimista e saudosista, por sua vez resumo da condição e da essência lusas, a que não podemos deixar de referir o mítico Velho do Restelo, figura do imaginário popular, que representa, por um lado o medo de arriscar e por outro um realismo cético, tão próprio do que é ser português. O episódio reflete seguramente a opinião do poeta, que ecoa também na lírica camoniana do desconcerto do mundo e do tema da mudança, oscilando constantemente entre cantos de exaltação e celebração amorosa e cantos de crise e (des)ilusões de grandeza.

A vida… o ser humano são confusos, complexos, controversos… o génio (de) Camões não era exceção, o que leva a dicotomias curiosas resultantes da transversalidade do seu reconhecimento: note-se a erudição do epíteto “Príncipe dos Poetas” em confronto com a popularidade da expressão “Vai chatear o Camões!”. Mas, entre eruditos e populares, o próprio Camões notou:

“Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado.”

Continuemos, então, a louvá-lo!